Primeiros parágrafos

«O meu amigo António – aquele que, em miúdo, com dez ou doze anos, ficava horas a fio, num descampado, de saco na mão, à espera dos gambozinos: um homem bom, incapaz de matar uma mosca ou de maltratar um gato – quarenta e quatro anos, figura esguia, uma farta cabeleira a esbranquiçar, uns óculos de aros redondos, o que lhe dava um ar de “intelectual de esquerda”, imagem que cultivava com requintado deleite, estava sentado a uma mesa, no Pavilhão Chinês, numa madrugada de sábado para domingo, a matutar à volta de uma cerveja, enquanto ia coçando a barba crescida mas bem aparada.
António tinha a cabeça num rodopio. O cansaço dilatava a vertigem em que se afundara na última meia hora, o que lhe dava um ar esgazeado. Refugiara-se ali para pensar, mas ainda não conseguira sair do vazio que o esfarrapava. Fixou o olhar na pintura do tecto: observou o soldado soviético, no seu uniforme cinzento, a espingarda a tiracolo, a subir a escadaria do Palácio de Inverno, numa tarde de Outubro. O soldado soviético e o Palácio de Inverno avivaram-lhe a memória dos muitos anos passados com a Joana, com quem viveu até há trinta minutos, talvez por ela continuar uma ortodoxa comunista.»

[in Uma História de Amor no Casal da Eira Branca, de Tomás Vasques, Abysmo, 2011]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges