Primeiros parágrafos

«Todas as tardes, quando as andorinhas rodopiam no céu cor de malva, um homem de cabelo grisalho transpõe a porta de um pequeno hotel da Rua Mirza Mansûr, vira à direita na Harb, depois à esquerda na Sabir, encimada por belas varandas de madeira, por vezes envoltas numa trepadeira e ornamentadas com peças de roupa. Vindo de um minarete próximo do Palácio dos Shirvanshahs, o apelo de um muezim – tão discreto, quase melancólico, que se torna comovente – suspende no ar frágeis arabescos sonoros. O deus que essa voz de violoncelo invoca não tem um ar terrível, seríamos capazes de o convidar para a mesa, e justamente jantamos sós esta noite, como quase todas as noites. As folhas das figueiras recortam mãos verdes e trémulas no céu. Em volta de Kiçik Qala desprendem-se das paredes os tapetes de cores e ritmos de vitral. O passeante transpõe agora a porta dupla rasgada na muralha de Isheri Sheher, a Cidade Velha (ou, traduzindo com mais exatidão, a Cidade Interior). As torres esguias parecem peças de um jogo de xadrez, ou pimenteiros (Alexandre Dumas, em 1858, observava que as fortificações de Baku eram feitas para deter ataques com armas brancas e não para resistir à artilharia). Hesita por momentos antes de atravessar o fluxo de alta cilindrada – luxuosos automóveis alemães, enormes todo-o-terreno, carros monumentais de um negro lustroso, cujos condutores carregam nervosamente na embraiagem, perto das muralhas. Turbilhão de carros funerários com turbocompressor, pilotados por cangalheiros de grande bigodaça e óculos Ray Ban

[in Baku – últimos dias, de Olivier Rolin, tradução de Manuela Torres, Sextante, 2012]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges