Primeiros parágrafos

«A minha mãe não era real. Era um sonho antigo, uma esperança. Era um lugar. Nevado, como este, e frio. Uma casa de madeira numa colina, com um rio mais abaixo. Um dia enevoado, a pintura branca gasta das casas que a luz aprisionada tornava inesperadamente mais brilhante, e eu voltava da escola. Tinha dez anos, vinha sozinha, seguia pelo meio da neve suja amontoada no pátio, em direção ao alpendre estreito de nossa casa. Não me lembro do que me ia no pensamento nesse momento, não me lembro de quem eu era nem de como me sentia. Tudo isso se apagou, desapareceu. Abri a porta da frente e deparei com a minha mãe pendurada de uma das traves do telhado. Desculpa, disse eu, e recuei e fechei a porta. Estava de novo lá fora, no alpendre.
Disseste isso?, perguntou Rhoda. Disseste desculpa?
Sim.
Oh, mamã.
Foi há muito tempo, disse Irene. E foi uma coisa que eu nem sequer naquela altura consegui ver, e por isso agora também não consigo. Não sei que aspeto tinha ela, ali pendurada. Não me lembro dos pormenores, apenas que aconteceu.»

[in A Ilha de Caribou, de David Vann, trad. de José Lima, Ahab, 2012]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges