Primeiros parágrafos

«Estava a escrever um artigo sobre as últimas fusões empresariais, quando notei um tremor no bolso direito do roupão, de onde tirei, misturados com vários bocados de pão, quatro ou cinco homenzinhos que atirei para cima da mesa, por cuja superfície desataram a correr, à procura de um buraco para se esconderem. Nesse momento, entrou a minha mulher, que nesse dia não fora trabalhar, para me perguntar se me apetecia um café. Quando chegou ao pé de mim, já não havia nenhum homenzinho à vista, só os pedaços de pão e algumas migalhas.
– Que mania! – disse, referindo-se ao meu hábito de guardar nos bolsos bocadinhos de pão, cuja côdea roía com os mesmos efeitos relaxantes com que outros fumam, ou bebem um copo.
Este costume metia-lhe nojo, embora os meus bocados de pão não fizessem mal a ninguém e, a mim, me dessem prazer. Em geral, depois de escrever um parágrafo com que me sentisse satisfeito, tirava um do bolso e dava-lhe três ou quatro dentadas, enquanto pensava no seguinte. Por qualquer razão, associava o exercício de roer à produção de pensamento.»

[in O que Sei dos Homenzinhos, de Juan José Millás, Planeta, 2012]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges