Primeiros parágrafos

«O Inverno de 1890 foi dos mais ásperos que flagelaram a Europa durante o século findo, e na Holanda, então — onde eu o passei quase todo —, país relativamente temperado e malissimamente preparado para as baixas temperaturas, morria-se de frio. Mas morria-se deveras, isto é: apareciam com frequência, nas ruas das cidades populosas, criaturas humanas inteiriçadas e mortas de frio.
O fleumático holandês clamava nos jornais contra a inclemência celeste, tal qual o exuberante napolitano — na desgraça todos se parecem —, anos depois vendo o Vesúvio toucar-se de gelo e a Riviera di Chiaia atascada em neve, se insurgia, também nas gazetas — como se a culpa fosse do governo —, contra a Providência que ordenava ou permitia aqueles rigores de temperatura em região a eles tão pouco afeita.
Foi o caso que nos Países Baixos todo o mês de Dezembro a temperatura se manteve entre 25º e 30º centígrados de frio; gelaram completamente os canais, os rios e até o Zuider-Zee, o seu pequeno Mediterrâneo. Mas os holandeses, em todo o caso melhor petrechados do que os napolitanos para resistir a semelhantes intempéries, aproveitaram a situação para dela tirarem algum partido, e metidos em peles, caras ou baratas conforme as posses de cada um, puseram-se na rua a patinar, e como grandes mestres que são nesse género de divertimento insensivelmente se transformaram de sorumbáticos, mazorros e grotescos em gente comunicativa, desempenada e alegre, dando ao país uma animação extraordinária e nunca atingida em Invernos normais.
Nos bairros populares das grandes cidades, como Amesterdão, o movimento durava, com intensidade quase igual, dia e noite, pois a qualquer hora o mesmo formigueiro humano cobria os canais, gente de todas as idades deslizando sobre o gelo em caprichosas evoluções e agitando os braços para atear o calor no corpo. Seria difícil encontrar-se alguém na rua que não levasse consigo um par de patins.»

[in Novelas Eróticas, de M. Teixeira-Gomes, Relógio d’Água, 2012]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges