Primeiros parágrafos

«Era uma hora de carro, a maior parte do trajeto a subir através de uma chuva impregnada de fumo. Eu mantive uma fresta da minha janela aberta, esperando sentir uma qualquer fragrância, um travo de arbustos aromáticos. O nosso motorista abrandava nos troços em que a estrada era pior e nas curvas mais apertadas e quando surgiam carros lançados ao nosso encontro através da bruma. A espaços, a vegetação da berma tornava-se menos densa, e avistávamos então extensões de selva pura, vales inteiros a derramar-se entre os montes.
Jill ia lendo o seu livro acerca dos Rockefellers. Assim que se embrenhava numa tarefa, tornava-se inacessível, dir-se-ia atordoada por uma poderosa descarga elétrica, e, ao longo de todo o percurso, vi-a erguer os olhos da página somente uma vez, para lançar uma olhadela fugaz a uns garotos a brincar num campo.»

[in O Anjo Esmeralda, de Don DeLillo, trad. de Paulo Faria, Sextante, 2012]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges