Primeiros parágrafos

«– Não – disse Golder.
Levantou com um gesto brusco o quebra-luz, para toda a claridade do candeeiro dar em cheio no rosto de Simon Marcus sentado à sua frente, do outro lado da mesa. Durante um momento olhou para os vincos, as rugas que por toda a longa face morena corriam como numa água escura agitada pelo vento, logo que os lábios ou as pálpebras se mexessem. Mas os olhos pesados e adormecidos de oriental permaneciam calmos, entediados, indiferentes. Um rosto fechado como uma parede. Golder baixou com precaução a haste de metal flexível que dava apoio ao candeeiro.
– A cem, Golder? Já fizeste bem as contas? É um preço – disse Marcus.
Golder voltou a murmurar:
– Não.
E acrescentou:
– Não quero vender.
Marcus riu-se. Os seus dentes compridos e brilhantes, revestidos a ouro, cintilavam esquisitamente na sombra.»

[in David Golder, de Irene Nemirowsky, trad. de Aníbal Fernandes, Sistema Solar, 2012]



Comentários

One Response to “Primeiros parágrafos”

  1. Rui on Outubro 11th, 2012 14:55

    Já pode dizer quão recomendada é a leitura deste livro?

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges