Primeiros parágrafos

«Era uma vez um menino
que não era nada feio.
O que tinha de extraordinário
era um feitiço no meio.

Foram estes os primeiros versos que se conhecem do menino Rómulo Vasco da Gama Carvalho. Tinha cinco anos quando os escreveu. Nessa altura ainda estava longe, muito longe o nascimento do seu amigo António Gedeão. Desse ser imaginado, amigo tão verdadeiro que um dia nasceu e um dia, ainda novo, morreu. Rómulo deu-lhe a vida suficiente, amou-o, fê-lo crescer. E ele cresceu e rondou-lhe os passos mais secretos, a sua vida mais íntima; a seu lado conheceu o dia e conheceu a noite, sussurrou-lhe as mais belas palavras, invadiu-lhe o pensamento a ponto de fazer com que algo mais que letras e palavras o acompanhassem de perto. Vigiou-o. Lembrou-lhe o que devia fazer e fez com que ele, Rómulo, se deixasse envolver por ele, António, a ponto de, nesses momentos, se esquecer de si. Mas, realmente, não era fácil esse esquecimento. Era um e era o outro, indissociáveis, unos. Até um dia. Até um certo dia em que um, o primeiro, declarou a morte do outro, o segundo.»

[in Rómulo de Carvalho/António Gedeão – Príncipe Perfeito, de Cristina Carvalho, Estampa, 2012]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges