Primeiros parágrafos

«Eu entendia o ódio com que o guarda da alfândega me olhava. Era um oficial de farda nova e completa, botas engraxadas, patentes brilhantes, talvez sessenta anos, talvez pai de alguém da minha idade. O compartimento tinha quatro lugares. A minha mala estava sobre a cama de cima, à esquerda. Eu estava à espera no corredor do comboio, entre toda a gente que também esperava. Quando chegou a minha vez, entrei. Ele estava de pé, a segurar o meu passaporte aberto à sua frente, como se me comparasse com a fotografia mas sem olhar para ela, apenas a fixar-me, severo, de ferro.
O seu olhar punha o meu corpo inteiro em tensão. Eu entendia essa tensão. Ali, significava ordem. Esse era também o motivo para o aparente ódio, ou desprezo, com que me olhava. Afinal, não era ódio, era disciplina.»

[in Dentro do Segredo, de José Luís Peixoto, Quetzal, 2012]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges