Primeiros parágrafos

«A mulher está nua, o que neste instante a ocupa é mais prático sem roupa – quando tocam à campainha.
A mulher fica transida. Imóvel: veado encadeado por faróis na estrada. O coração acelera. A mulher pensa. Ou tenta pensar.
Tocam novamente à campainha. A primeira coisa que ocorre à mulher é que tem de se calçar. Não de se vestir; de se calçar. É estúpido? É assim. Uma pessoa nunca sabe como reage. E é ainda nua, e descalça, que vai espreitar.
A mulher não sabe o que fazer. Será publicidade? Um vizinho? O carteiro? Pior: serão eles?
O menino. A mulher vai buscá-lo ao quarto, acorda-o, põe-lhe um dedo nos lábios. Chiu, meu querido, vais ter de ficar em silêncio. Achas que consegues? Como já fizemos das outras vezes.
A mulher sorri perante o assentimento obediente da criança e diz-lhe para se esconder na casa de banho. E, sobretudo, não fazer barulho. A mulher quase se perde num banho de ternura, mas esta não é a ocasião. Tocam novamente à campainha. Depois de assegurar que ele está escondido e que não irá fazer barulho, a mulher hesita e pega num pé-de-cabra e encosta-o à dobra da porta. Depois vai pé ante pé à cozinha, encontra uma bata e um avental, veste a bata e coloca o avental por cima, à cintura. Depois percebe que é redundante e tira o avental. A campainha toca de novo, desta vez mais insistente. A mulher vai para abrir. Lembra-se de que está descalça. A campainha toca de novo. A mulher corre a pôr uns chinelos e espreita pelo óculo.
Ainda tinha esperanças de que estivessem lá em baixo, mas não, estão já cá em cima. Alguém lhes abriu a porta do prédio. Ou terão uma chave-mestra, para abrir as portas da rua? Tudo é possível, a mulher sabe por experiência própria. Tudo é possível, nos tempos que correm. O mundo está de pernas para o ar. E não é para proceder a uma simpática cópula carnal que está de pernas para o ar. O mundo está de pernas para o ar porque está de pernas para o ar.
A campainha toca uma vez mais. Há um bater de nós dos dedos na porta. Como que a dizerem, os nós dos dedos na porta:
Abra, sabemos que está em casa, tudo o que disser pode ser usado contra si…»

[in A instalação do medo, de Rui Zink, Teodolito, 2012]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges