Primeiros parágrafos

«O marido, respondeu ela, também era escritor – pelo menos, por capricho. Os homens gordos batem nas mulheres, diz-se, e ele tinha sem dúvida um ar feroz quando deu com ela a vasculhar os seus papéis. Fingiu que deixava cair um pisa-papéis de mármore e esmagava aquela débil mãozinha (mostrando a mãozinha em movimento febril). Na verdade, ela procurava uma estúpida carta comercial, nem por sombras tentava decifrar o seu misterioso manuscrito. Oh, não, não era uma obra de ficção, coisa para alinhavar à pressa, sabe, para fazer dinheiro; era o testamento de um neurologista louco, uma espécie de Opus Venéfico, como naquele filme. Tinha-lhe custado, e custar-lhe-ia ainda, anos de trabalho, mas a coisa era, evidentemente, absoluto segredo. Se falava sequer nisso, acrescentou ela, era só por estar bêbeda. Queria que a levasse a casa ou, de preferência, a um sítio simpático e sossegado com uma cama limpa e serviço de quartos. Vestia um vestido sem alças e sandálias de veludo preto. O peito do pé nu era tão alvo como os ombros jovens. A festa parecia ter degenerado numa porção de olhos sóbrios que a fitavam com malévola compaixão de todos os cantos, de cada almofada e cinzeiro, até das colinas da noite primaveril enquadrada pelas portas abertas da varanda. Mrs. Carr, a anfitriã, ia dizendo que pena Philip não ter podido vir ou Flora não o ter convencido a vir! Para a próxima, posso drogá-lo, disse Flora enquanto remexia o seu assento à procura da pequena bolsinha de soirée sem forma, um cãozinho preto cego. Está aqui, exclamou uma rapariga anónima, agachando-se de repente.»

[in O Original de Laura, de Vladimir Nabokov, tradução de Telma Costa, Teorema, 2010]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges