Química
«Não se terá tornado o acto de escrever mais uma experiência quimicamente produzida, na qual fabricamos um polímero complexo juntando sílabas em vez de moléculas? As palavras do nosso léxico foram estandardizadas a tal ponto que parecem agora um dispositivo limitado de componentes que se podem montar (à semelhança de peças de Lego que se encaixam); e as regras da gramática foram de tal forma racionalizadas que parecem um campo limitado de modos de recombinação (à semelhança de um novo cubo de Rubik que se vai rodando). A natureza proteica do nosso discurso vê-se vulcanizada nos nossos brinquedos. Vemos a linguagem comercializada como uma mercadoria infantil – um brinquedo adequado a todas as idades, cujo revestimento de plástico torna seguro possuir e fácil de usar; todavia, temos de imaginar uma poética mais corrosiva (algo suficientemente vitriólico para dissolver um verniz acrílico), e se não conseguirmos destilar um ácido deste tipo, inventemos então uma poética mais explosiva (algo suficientemente catalítico para detonar um acabamento tão acetinado). Precisamos de uma variedade linguística de gelenhite ou plástico – o tipo de literatura incendiária, escrita apenas por inadaptados, que cresceram, ainda tontos dos fumos, depois de terem derretido um pelotão de soldadinhos de plástico com um fósforo.»
Christian Bök
[in pullllllllllllllllllllllllll - Poesia Contemporânea do Canadá, selecção e tradução de John Havelda, Isabel Patim e Manuel Portela, Antígona, 2010]
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2 Responses to “Química”
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Não! Não enquanto as línguas forem corpos vivos e orgânicos. Se calhar é mais fácil ter esta visão plástica quando vivemos perto de universos linguísticos paralelos como o Português dos trópicos, que se embrulha e mistura e renasce constantemente, ou com o Sheng, pelo qual estou morta de amores actualmente, uma língua dos bairros de lata de Nairobi que mistura, inglês, francês, swhaili e línguas banto e nilóticas e que cresce e se adapta tão rapidamente que se alguém ficar longe um mês deixa de ser capaz de comunicar tão eficazmente como antes. Não há ditadura do dicionário e da gramática que crie barreiras à plasticidade das línguas.
Percebo e partilho o protesto contra o lugar-comum e a revolta contra a ditadura da vulgaridade que nos rodeia, não raro reflectida na linguagem; não obstante, do ponto de vista do conhecimento linguístico actual, o texto é um misto de disparates e pura retórica.