Reis e sapateiros

«Num hospício, um louco gritava no seu leito, apontando para o retrato do rei na parede da enfermaria: “O rei sou eu! Prendam esse impostor!” Nisto alguém se aproximava dele e dizia-lhe baixinho, junto à orelha: “Exerga-te”, e ele então caía em si, e depois essa pessoa perguntava-lhe, sempre no mesmo tom: “Que fazes tu na vida?”, e ele respondia, também baixinho, e com uma voz obediente: “Sou sapateiro”, isto até desatar a gritar outra vez que era o rei, e o verdadeiro, e alguém lhe falar de novo ao ouvido, e ele se calar, e assim por diante, e assim somos todos nós, também reis e sapateiros (e alguns de nós verdadeiros).»

[in O Filho de Campo de Ourique e outras histórias, de António Figueira, Dom Quixote, 2011]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges