Repetição da minha vida

«Sempre me senti deslocado face ao tempo, como se lhe tivesse ganho um avanço substancial, irrecuperável. As coisas acontecem em mim antes ainda de terem uma expressão objectiva e materializada. A realidade surge invariavelmente depois. Não sou um visionário, não vivo antes do meu tempo. Digo isto sem qualquer falsa modéstia. A dissonância existe entre o meu agora e o próprio fluir do tempo. A ausência de provas tem-me levado a acreditar que se trata apenas de uma sensação, de intensa subjectividade, embora doa objectivamente. No plano da realidade os factos revelam-se simultâneos: desloco-me à mesma hora que os demais para o emprego e se bebo de pé, pelo caminho, um café na gare, quando levo a chávena quente à boca executo esse gesto ao mesmo tempo que o meu companheiro de ocasião leva igualmente a sua chávena à boca, no caso, naturalmente, de levar a chávena à boca ao mesmo tempo que eu, não antes nem depois. Sucede que a chávena, quando com ela toco nos lábios, e o café, quando finalmente o bebo, já me tocou (a chávena) e já foi bebido (o café). Não é fácil explicar isto. Poderia prosseguir com os exemplos durante o resto da noite. Apresentar a regra, porém, sem incoerências nem lapsos, exige um poder de síntese e uma fulguração para os quais a linguagem não tem a necessária aptidão. Sou mais lento do que a maioria, a falar ou a mover-me, mas apreendo com uma velocidade de relâmpago – eis outra formulação possível. Antecipo. Mais um exemplo: aquela mulher, como assistimos, acabou de cair, empurrada por um ciclista, esfolou o joelho e rompeu as meias e teve por apropriado dirigir-lhe insultos menos dignos. Contudo, esse não foi para mim um facto novo. Ela já tinha caído quando caiu e eu adivinhara a sua reacção intempestiva antes mesmo de dirigir os insultos ao rapaz que já pedala lá longe e nada ouviu. Adivinho, talvez, e talvez porque duvido quanto à adequação do verbo ao meu caso. Diria que não controlo a minha velocidade, que acelero e que vou um pouco à frente da realidade (isto para retomar, embora com um sentido ligeiramente diferente, as minhas primeiras frases), como se premisse o botão da fotografia e dispusesse ainda de tempo para abraçar os meus familiares, vindos de longe, e com eles ficar guardado na posteridade. Os factos são como aconteceram por dentro de mim antes do seu tempo. Tudo é sempre como qualquer outra coisa antes. Quando me sinto mais desalentado torna-se evidente – embora a comparação não me sirva de todo e apresente fragilidades e fique aquém do que inicialmente pretendera – que é como se tivesse morrido há muito, mas tivesse garantido, no momento do último suspiro, o dom de me sobreviver e assistisse agora unicamente à monótona e esgotante repetição da minha vida.»

[in Alfabeto Adiado, de José Ricardo Nunes, Deriva, 2010]



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges