Seis verbetes de Afonso Cruz

BABEL

A maldição de Babel não foi os homens desentenderem-se por falarem línguas diferentes, mas sim desentenderem-se falando a mesma língua.
(Dovev Rosenkrantz)

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(A) CONTRADIÇÃO DO SOBREIRO

A vida descreve-se pela contradição do sobreiro: o jovem não tem paciência para esperar meio século para que a árvore cresça e seja adulta. Por isso, não a planta. Quando chega a velho e, finalmente, tem paciência para esperar, planta-a, mas já não tem tempo para a ver crescer.

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CORVOS

Aos homens que tentavam sedentarizar-se, os Ubitatã cortavam-lhes os pés: «se não caminham, não precisam deles». E davam os pés a comer aos corvos.
O rei da Assíria, Sardanapalo, pelo contrário, cortava os pés dos nómadas para que estes se tornassem sedentários. Depois, dava-os a comer aos corvos.
Em ambos os casos, os corvos é que ficavam a ganhar.

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LER

Podem não existir livros a mais, mas existe tempo a menos.
(Wilhelm Möller)

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ÓCIO

O ócio não é o contrário de trabalho. A felicidade é que é o contrário de trabalho.
(Marian Bibin)

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(RELAÇÃO ENTRE O) TELHADO E A DÚVIDA

Por mais andares que uma casa tenha termina sempre no telhado. É assim a vida do homem: por mais certezas que tenha, termina sempre na dúvida.
(Malgorzata Zajac)

[in Enciclopédia da Estória Universal – Recolha de Alexandria, de Afonso Cruz, Alfaguara, 2012]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges