Sete aforismos de Vasco Gato

Ouvir a minha própria voz. Usar para esse efeito carruagens de comboio. Arrecadações. O interior de uma lanterna.

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A destruição é uma prerrogativa do desejo.

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Esta fúria de puxar um corpo e resumi-lo à sua posição. Isto é, abrandá-lo aos repelões. Segurar o bisturi da minha própria sombra e não falhar.

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Como um veneno, a minha vida começa a actuar. Não é de repente. É ir perdendo os dedos, os braços, cada vértebra – a ortodoxia do corpo.

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O que eu habito é a minha vulnerabilidade.

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Em poesia, o sentido é o corpo intacto dentro do veículo sinistrado. Ferro contorcido e carne verbal, guardada em segredo. O poema é desencarcerar-se.

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Tudo a funcionar. Como surda derrocada. Semáforos, bibliotecas, quiosques, capitéis, colchas, tesouras, máquinas de café: metástases, metástases.

[in Rusga, Trama, 2010]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges