Três fragmentos de António Ferra

«Tremia-lhe a garganta com a vibração do comboio.
Chegou a casa alarmado com a explosão do próprio corpo que enfrentara no dia em que foi às sortes.
E no domingo, com as gargalhadas à volta, bebeu o vinho que lhe tingia as despedidas.
Sentiu na pele a farda de caqui, o peso da mauser, o despropósito das botas.

***

Tornou-se igual à cidade que viera habitar. Tinha dentro de si espaços novos e rectilíneos, bairros com casas todas iguais, habitações fechadas em pátios, zonas de utilização pública.
E pedaços degradados, ruínas de lojas cadentes, à espera de trespasse ou liquidação total.

***

Às seis horas, arrumava os papéis da secretária, cobria a máquina de escrever com uma capa de pergamóide e saía entre até-amanhãs, sem contabilizar as beatas num cinzeiro esmaltado.
Quando chegava à rua, olhava uns plátanos, sobranceiramente, e distraía-se no recorte das folhas – memória de uma infância arborizada.»

[in Bio grafia, Europress, 2010]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges