Três fragmentos de Rainer Maria Rilke

«XXI

Se queremos ser iniciados da vida, devemos considerar as coisas em dois planos: primeiro a grande melodia, na qual cooperam as coisas e odores, sensações e passados, crepúsculos e nostalgias; – e depois: as vozes singulares que completam e rematam a plenitude deste coro.
E, acerca de uma obra de arte, isto quer dizer: para criar uma imagem da vida profunda, da existência que não é apenas a de hoje, mas que é possível em todos os tempos, será necessário equilibrar e estabelecer uma relação justa entre as duas vozes, a de uma hora marcante e a de um grupo de gente que nele se encontra.

XXII

Para este fim, importa ter distinguido os dois elementos da melodia da vida na sua forma primitiva; temos de pôr a nu o rumorejante tumulto do mar e extrair dele o ritmo do ruído das ondas, e ter isolado, na confusa rede da conversa quotidiana, a linha viva que traz as outras. É preciso pôr lado a lado as cores puras para aprender a conhecer os seus contrastes e as suas afinidades. É preciso ter esquecido o Muito por amor ao Importante.

XXIII

Quando duas pessoas estão praticamente ao mesmo nível, não precisam de falar sobre a melodia das suas horas. Esta é o seu elemento e é-lhes comum. Está entre elas como um altar ardente e alimentam-lhe a chama sagrada, timidamente, com as suas sílabas raras. Se retirar as intenções a ambos e os colocar em cena, faço-o manifestamente para mostrar dois amantes e explicar porque é que foram abençoados. Mas em cena o altar é invisível e ninguém pode explicar os estranhos gestos dos sacrificados.»

[in Notas sobre a melodia das coisas, tradução de Sandra Filipe, Averno, 2011]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges