Um soco no estômago do mundo

«Como o próprio nome do conjunto de torres sugere (centro de negócios do mundo), o ataque foi um soco no estômago do mundo, não apenas no umbigo da América. Gostaria de vos contar certos detalhes deste dia num ambiente de absoluta tranquilidade. Nunca pessoalmente, claro. Teria de ser um filme com planos fechados e uma banda sonora pungente. Não um livro calado. Recorreria a violinos para legitimar as vossas lágrimas e, em simultâneo, o nosso orgulho patriótico. Todas aquelas pessoas, companheiros de salto ou não, foram soldados, bravos soldados, verdadeiros heróis, e nem por um momento divisei neles ou nos seus actos o mais leve rasto de cobardia. Não faz sentido classificar os seres humanos pelo tipo de morte que tiveram. Mais tarde perceberão, mesmo que vos custe, que não há diferença entre as pessoas que voaram, como eu, e as que morreram queimadas, intoxicadas ou esmagadas. Houve os que caíram desmaiados por não terem suportado o fumo ou a pressão dos corpos que se empilhavam à janela sobre eles, houve os que tentaram descer pelo exterior do prédio e também caíram, os que voaram acreditando até ao fim num milagre, os que lutaram por algo que os amparasse (uma peça de roupa a servir de pára-quedas? Deus?) e os que simplesmente se atiraram para fugir da morte que o destino para eles escolhera, assumindo o fim e voando em paz. À janela, em pilha, a escolha pareceu óbvia. À janela, em pilha, com dezenas de pessoas atrás a empurrar para conquistar uma nesga de ar livre, e atrás delas o fumo negro e espesso, e atrás dele as línguas alaranjadas do fogo, a escolha foi óbvia.»

[in A Manhã do Mundo, de Pedro Guilherme-Moreira, D. Quixote, 2011]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges