11 de Setembro de 2001

«Deixara de ser uma simples rua, era agora um mundo, um tempo e espaço de cinza a tombar e quase noite. Ele caminhava para norte através do entulho e da lama e havia pessoas que o ultrapassavam a correr, com toalhas encostadas ao rosto ou casacos a cobrir a cabeça. Tapavam a boca com lenços de assoar. Traziam sapatos nas mãos, uma mulher com um sapato em cada mão surgiu a correr e deixou-o para trás. Corriam e estatelavam-se, algumas, confusas e desajeitadas, com destroços a tombarem à sua volta, e havia pessoas a abrigarem-se debaixo dos automóveis.
O rugido permanecia no ar, o ronco distorcido da queda. Agora o mundo era assim. O fumo e a cinza rolavam pelas ruas fora e dobravam as esquinas, irrompiam brutalmente às esquinas, ondas sísmicas de fumo com folhas de papel timbrado a surgirem em lampejos, folhas de formato padronizado com bordos cortantes, a pairarem, arrastadas num sopro, coisas inimagináveis na cortina de fumo matinal.

Ele vestia fato e gravata e trazia uma pasta na mão. Tinha vidro no cabelo e no rosto, bolhas marmoreadas de sangue e luz. Deixou para trás um letreiro que dizia Menu Especial Pequeno-almoço e as pessoas passavam por ele a correr, polícias e seguranças a precipitarem-se pela rua fora, a apertarem o punho dos revólveres com a mão para manterem as armas encostadas ao corpo.
Era distante e silencioso, o interior das torres, onde ele deveria estar àquela hora. À sua volta é que tudo fervilhava, um carro meio sepultado nos destroços, de vidros estilhaçados e com ruídos a emergir, vozes radiofónicas a arranhar os escombros. Ele via pessoas a gotejar água enquanto corriam, roupas e corpos encharcados dos aspersores de combate a incêndios. Havia sapatos abandonados em plena rua, malas de senhora e computadores portáteis, um homem sentado na berma do passeio a tossir sangue. Copos de plástico saltitavam estranhamente de um lado para o outro.

O mundo era também isto, figuras humanas em janelas trezentos metros acima do chão, a lançarem-se no vazio, e o cheiro nauseabundo do combustível a arder, e o ar rasgado pelas sereias insistentes. O ruído estava em toda a parte para onde as pessoas corriam, o som estratificado a acumular-se em volta delas, e ele afastava-se e ao mesmo tempo mergulhava no seu seio.
De repente surgiu outra coisa, exterior a tudo aquilo, não pertencente àquela esfera, lá no alto. Viu-a descer. Uma camisa tombou da muralha altaneira de fumo, uma camisa que se elevou e pairou à luz escassa e depois tornou a cair, soçobrando em direcção ao rio.
As pessoas correram e depois estacaram, algumas, ali paradas, a vacilar, tentando recuperar o fôlego no ar ardente, com gritos entrecortados de incredulidade, pragas e urros perdidos, e os papéis que enchiam o ar, contratos, curricula vitae arrastados num instante fugaz, fragmentos intactos de transacções, céleres no vento.»

[in O Homem em Queda, de Don DeLillo, trad. de Paulo Faria, Sextante, 2007]



Comentários

One Response to “11 de Setembro de 2001”

  1. Bibliotecário de Babel – DeLillo + Auster on Setembro 12th, 2008 16:27

    […] horas depois de ter publicado este post, reparei que Carolyne Kellogg, do blogue Jacket Copy (Los Angeles Times), teve a mesma ideia (não […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges