2 x Francesca Woodman

Eis uma das vantagens do Facebook: descobrir que o Miguel Cardoso (ver post anterior) faz anos hoje (parabéns!) e que também tem um poema sobre a Francesca Woodman guardado para um livro futuro (encontrei-o num comentário a uma imagem da fotógrafa norte-americana). Digo também porque escrevi um poema sobre Francesca Woodman no meu primeiro livro, Nuvens & Labirintos. E para celebrar a coincidência junto aqui os dois poemas:

FRANCESCA WOODMAN

Uma rapariga
que roda
a cabeça
na sombra
e os pés
no bordo
tremendo
da madeira
desfoca
o centro do amor.
Uma rapariga
que enrola
as tripas
na luz
que afaga
as paredes
e roça
os vestidos
nas costuras
das casas
cristaliza
o poroso poder
do cimento
Uma rapariga
que ventoinha
nua
mostra
os dentes
e traça
quadrados
de arame
no ar
enrodilha
os corpos
no medo.

Ah como a carne
saltita
macilenta
nas fotografias
e como é bom saltar
à corda
sobre sombras.

O tempo sustém
roupas e cabelos
com pinças delicadas.

Não é fácil fingir que se paira,
que não se vai morrer.

Pode-se acreditar nos lugares
onde uma rapariga adia o corpo mortal,
nos lugares onde a pele chupa a luz
e se afunda no umbigo
dos lugares.

Pode-se acreditar no reverso
dos corpos, no negativo aguçado
do lugar que nos foi dado.


Miguel Cardoso (inédito)

RETRATO [FRANCESCA WOODMAN]

Antes da morte, houve ilusões de óptica:
a geometria interior do medo, espelhos,
flores barrocas, casas que são corpos em
ruínas e a janela violenta, temível, aberta.

Antes da morte, houve súbitas revelações:
espanto, dor, luz vermelha, molas da roupa,
tantos gestos a meio caminho, eclipses, fugas,
talvez já este olhar que atrai todas as sombras.


José Mário Silva



Comentários

2 Responses to “2 x Francesca Woodman”

  1. Rui Almeida on Agosto 14th, 2010 20:12

    Não resisto… deixo aqui um poema meu guardado há mais de 10 anos:

    Até onde vão as sombras
    (Francesca Woodman – CCB 1999)

    Mulher nua
    Um corpo que se esconde
    E se afirma.

    Um corpo sombra,
    Sombrio não, sozinho,
    Múltiplo, vasto.

    O gozo da marca no chão,
    O perigo
    Suspenso na porta.

    Auto-retrato sem ninguém,
    Uma mulher vestida
    Esconde o cárcere,

    Depois templo
    E nave perdida
    E espaço limpo e negro.

    A nudez risca
    E engole a claridade,
    Foge do tempo e fixa-se.

    São templo e cárcere
    Os espelhos de corpos nus,
    Corpo só.

  2. leal maria on Agosto 17th, 2010 2:48

    anatomia em sob-luz
    (inspirado na fotografia de Francesca woodman)

    alma…
    é ela que obstinadamente procuro
    ao devassar corpos
    ao exigir a subserviência do olhar
    sim, a alma
    essa figura que no incomensurável futuro
    promete resgatar-me à putrefacção
    que em desespero tento adiar

    mas são as sombras
    que me decifram a morfologia dos sentidos
    minha ideal grafia para imperfeitos dialectos
    sustendo-me as ruínas
    albergue dos meus amores perdidos
    numa anatomia de sob-luz que desejo perfeita e feita de afectos

    subtis são os desejos
    que vindimo no anárquico turbilhão do que sinto
    com eles profano
    o total despojamento de anónimos lugares
    ínfimos instantes
    em que não sei se falo a verdade ou minto
    as memórias como refinados vinhos esquecidos em esconsos lagares

    tudo me converge numa alucinada espiral
    para o limiar de uma porta
    onde se realiza uma crucificação pagã
    dogma a tinta indelével sobre uma linha direita
    onde um semi-deus escreveu numa caligrafia torta
    inúteis instruções
    para a tentação que tenho em comer a maçã

    num abraço frio e virgem
    a terra acolhe todos os corpos que amei
    assim inertes, têm a dinâmica da vertigem
    mas não lhes reconheço no rosto a alma que neles invoquei

    leal maria

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges