25 de Agosto de 2007

Eduardo Prado Coelho

Foi há um ano. De repente, alguém me disse: «Olha, eu sei que estás longe, mas é só para saberes que o Prado Coelho morreu.» Eu estava longe, de facto. A uns milhares de quilómetros, sul de França, estalagem de aldeia perdida nas montanhas, quase a sair para o casamento do meu irmão. O amigo falava e a voz era um zumbido, uma coisa impossível, um soco no estômago. Por aqueles dias, todos dissemos o quanto íamos sentir a falta do Eduardo. Um ano depois, falo por mim, continuo a senti-la (e muito).
Eis o que escrevi, no Invenção de Morel, após o regresso a Portugal:

EPC
A meio da minha ausência, um amigo telefonou-me a dizer que o Eduardo Prado Coelho morrera horas antes. Foi no sábado. Um calor brutal e os filhos mergulhados no sono frágil da sesta. Dali a pouco mais de 30 minutos, o maire da aldeia leria os artigos do Código Civil francês relativos ao casamento, com a faixa tricolor pousada em cima da mesa, a três passos do retrato sorridente do odioso président Sarkozy. Dali a pouco mais de 30 minutos, o meu irmão e a sua amada sairiam sob uma chuva de arroz (um dos poucos resquícios de formalidade nupcial a que não conseguiram escapar), belos e felizes e eufóricos.
Ao telefone, o meu amigo a dizer-me que depois explicaria melhor aquilo, o EPC morto assim de repente, eu a lembrar-me de o ver acinzentado, estranhamente emagrecido, à espera do transplante salvador, o transplante que veio, o transfigurou, o remoçou durante uns meses, afinal para nada, só para o coração o trair pouco depois.
Conheci mal o Eduardo, quase só por tangentes, conversas oblíquas em festas e encontros literários, pequenos acenos de cumplicidade. Ele gostava muito do suplemento DNA (e sobretudo das fotografias do Augusto Brázio) quando eu estava no DNA. Falávamos disso. Num meio cultural tão pequeno como o português, era impossível não tropeçar nele, no seu sorriso ao mesmo tempo malicioso e infantil, na força gravítica de um poder que era, ainda, o poder do intelectual que abarca várias áreas do saber, com noção perfeita da sua influência, capaz de exaltar (ou enfurecer) os leitores, levando-os a descobrir livros, filmes, artistas plásticos, teorias que de outra forma lhes passariam ao lado.
Junto à janela cheia de luz, calçando os sapatos para a festa, lembrei-me com extraordinária nitidez do seu rosto de papel, aquele desenho meio estilizado que encimou anos a fio a crónica do Público. Nos últimos anos, o seu rosto já não era assim (era muito mais magro), mas sempre que o lia eram aquelas barbas a meio caminho entre o Pai Natal e Karl Marx que via nas entrelinhas dos textos, miniaturas elegantes que tanto citavam Deleuze e a última descoberta bibliófila na livraria La Hune, como testemunhavam fúrias com telemóveis perdidos, impressoras avariadas e call centers kafkianos, toda a sorte de entusiasmos, maquinações e venenos, discursos redondos sobre revistas de design em papel couché ou odisseias de cidadão comum nos corredores de um hospital.
Junto à janela cheia de luz, num sábado à tarde, fiquei na fronteira entre a tristeza da morte que chega por telefone, a dois mil quilómetros de distância, e o rumor imaginário da festa que ainda não aconteceu mas já estende as suas raízes. Hesitei um momento, em frente ao espelho. E então as crianças acordaram.



Comentários

One Response to “25 de Agosto de 2007”

  1. maria manuel on Setembro 1st, 2008 22:27

    Forever

    He was my North, my South, my East and West,
    My working week and my Sunday rest,
    My noon, my midnight, my talk, my song;
    I thought that love would last for ever;
    I was wrong.

    Wystan Hugh Auden

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges