“3 vezes 3, 9, noves fora nada”
Paulo Moura, jornalista do Público, foi assistir ao lançamento do livro de poesia de Paulo Teixeira Pinto, ontem ao fim da tarde, na antiga Escola Politécnica. Eis o relato que publica hoje, na íntegra:
«”Silêncio. Silêncio. Silêncio.” Três vezes. A superprodução, concebida pelo poeta, ex-CEO do maior banco privado português (BCP), começou. “Noventa e cinco: Silentium. Noventa e cinco: Silentium.”
O anfiteatro do Museu da Ciência está cheio. Os nomes certos em número certo (muitos) da política, da religião e da finança. Os nomes certos em número certo (poucos) da literatura: Margarida Rebelo Pinto. Da aristocracia, nome e número exacto: D. Duarte Pio.
Voz off, sensual, de Rosário, a produtora: “José Prata. José Prata.” Duas vezes. Entra o editor da Caderno. “Vou dizer 190 palavras, começa ele.”
Voz off: “Mário Crespo. Mário Crespo.” O jornalista transforma o poema em música: “Taauum vida de badalo. E assim bate o sino da vida Tauuum.”
Rosário, que ensaiou com os participantes o espectáculo, até ao mais ínfimo pormenor: “António Emiliano. António Emiliano.” O professor de Linguística e compositor entra, de chapéu de feltro. Olha para a plateia e começa: “Sua Alteza, caros alunos. A lição de hoje é a número 58.” O rei faz parte da encenação?
“Eu nem sequer gosto de literatura”, esquiva-se o académico escolhido pelo autor para apresentar o livro. Esquiva-se mais: “Não percebo nada de poesia contemporânea.” Tenta ser exacto: “Não sei se isto é um livro de poesia. De acordo com a Teoria da Literatura, não é poesia.” Mas lá explica: “Vim aqui porque a amizade do Paulo Teixeira Pinto é importante para mim.”
Segunda tentativa, Vasco Graça Moura (anunciado duas vezes). “Boa noite. Vou dar-vos conta de algumas reflexões…” Mas começa a fazer contas: “81 é 3 vezes 3 vezes 3, mas 3 vezes 33 é 99…” Cita a Bíblia, os cancioneiros, Platão, para demonstrar que os números estão em tudo. Principalmente o 3. Apresenta o grande argumento: “Três foi a conta que Deus fez.”
Nicolau Santos, o segundo declamador, anunciado duas vezes, acrescenta três poemas. Duas vezes é anunciado Paulo Teixeira Pinto. Solene, de fato preto, declara: “3 vezes 3, 9, noves fora nada. Vou dizer nove coisas.” Número 1, dedicatórias, 2, in memoriam, 4, “… és verbo ou número?, 5, “… os títulos são em latim porque é uma língua morta…”, 6, “… nenhuma palavra está a mais, pelas minhas contas”, 7, “… a razão pela qual o livro se chama 81″, 8, “…porque tem 99 poemas”.
No fim, Pedro Abrunhosa, com crucifixo e a palavra Degeneration na t-shirt preta, declamando poemas sobre textos gravados e banda sonora de Emiliano, transforma tudo em música (ninguém percebeu as letras).
Ah, e o número 3 do discurso do poeta era: “… que fiz eu para merecer isto?”»
Comentários
7 Responses to ““3 vezes 3, 9, noves fora nada””
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Espero que tenham todos levado fraldas, ou ninguém se urinou a rir?
Espero bem que sim, que o saldo final tenha sido uma grande poça da comunhão dos chichis, seria a garantia de que há sentido de humor nessa soturna gente.
Não sei do que falo, intuo, deduzo, assim deve ser um encontro maçónico, até mais noir, uma sessão introdutória do Ku Klux Klan, uma adaptação ainda mais hermética de Prospero’s Books.
Por que levam a poesia por tão sinistro caminho?
triste espectaculo.
Os tubinhos dos cocktails não eram nada maus. Bebi três. A espera foi longa.
Foi pena ter-me esquecido dos óculos de sol. A Margarida Rebelo Pinto passou à minha frente e não pude evitar o reflexo dos cabelos loiros e desfraldados.
“Olha a minha mãe!”.
Olha a mãe dela.
Quando entrou o Vasco da Graça Moura resolvi ir ouvi-lo para a primeira fila. O reflexo dos cabelos da Margarida não me deixava concentrar no preto dos fatos.
Mas também pode ter sido de apanhar com o estilhaço dos flashes do pelotão de flashização das revistas cor de rosa. O que deu colorido ao acontecimento.
Por isso, já sabem. Se me virem nas fotos, não foi de propósito.
Nem na do Diário de Notícias.
Sabia lá que ia ficar em fundo. Ainda se fosse o comandante Cousteau tinha alguma lógica…
Já tunha visto/ouvido com espanto, há uns tempos, o Sr. Crespo no Jornal das 9, entrevistar e “declamar” esse financeiro/vate…
É lamentável que gente com obra literária séria e profícua (caso de vgm) ceda a essas ségadas. E isto nem sequer é preconceito anti-plutocrata. É que o homem está equivocado. Alguém, com coragem, lhe deve dizer que “o rei vai nu”.
Era apenas uma imensidão de gente conhecida de toda a gente de todo o lado deste pequeno país, reunida num serão de província, a cantar loas e entoando hinos de louvar ao número. Era apenas isso por certo. Tive a oportunidade de ler o livro de pé numa livraria de província. De pé aquilo lê-se num instante. Nada tem lá dentro para além das palavras que ali soam sem sentido tratando-se de um exercício de gosto escolar e de sinal medíocre. Prefiro o arroz doce dos casamentos, mesmo sem ovos e com pouco açúcar.
Acho que o Eça já aflorava ambientes semelhantes n’Os Maias, não?… os famosos saraus literários… Portugal mudou tanto que tudo parece na mesma…
comentário ao primeiro comentário,
e porque se trata de gente das Finanças:
clara manifestação de
LIQUIDEZ