“Desalinho alinhavo ou logro”
A disfunção lírica
Autora: Inês Lourenço
Editora: &Etc
N.º de páginas: 59
ISBN: 978-972-8539-98-6
Ano de publicação: 2007
Pode um livro de poemas pôr em causa ideias feitas sobre o que é a poesia? Não só pode como deve, se além de um certo distanciamento crítico houver ironia. E ironia é algo que nunca faltou a Inês Lourenço, autora discreta de Um Quarto com Cidades ao Fundo (obra reunida, 1980-2000, na editora Quasi) e de A Enganosa Respiração da Manhã (Asa, 2002), além de ter editado os igualmente discretos Cadernos de Poesia — Hífen. Veja-se um exemplo (Passageira):
«O poema que não
surpreende nem afirma
a inutilidade de si, nem ensina
a olhar a certa dissolução
das coisas, nem interroga o desencanto
É uma espécie de prurido
nas nossas costas, coisa
irritante e passageira
que logo se esquece.»
No fundo, esta é uma escrita consciente dos limites do lirismo e que por isso já nem tenta captar a “excelsa beleza” das coisas mais altas, ficando-se pelo prosaísmo das “batatas novas” que aparecem antes da Páscoa ou pela estética da fragilidade, essa “paixão / sem blandícia das asas / quebradas”. Mesmo sabendo que renuncia à hipótese de aparecer nos livros adoptados pelas escolas (ou talvez por isso mesmo), a autora assume que em vez de “azul mar e barcos” escreverá sempre “desalinho / alinhavo ou logro”.
Nos restantes poemas, mais irregulares, há um regresso a territórios conhecidos: o diálogo com outros poetas (Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Fiama Hasse Pais Brandão), a evocação de gatos, polaróides do quotidiano e subtis sabotagens do “rigor poético”, sobretudo em memórias acres de experiências religiosas ou de um amor que é, as mais das vezes, um “erosivo eros”.
Avaliação: 6,5/10
[Texto publicado na revista Time Out Lisboa]
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Comentários
2 Responses to ““Desalinho alinhavo ou logro””
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os limites do lirismo ainda percebo, mas essa da pontuação, e para mais com vígulas, é que me lixa.
disfunção lírica? menos mal. há disfunções piores.