4.ª Pergunta

«Tenho a convicção de que um escritor acredita mais na palavra deus do que em Deus propriamente dito. E este modo de colocar a linguagem no quarto principal do palácio não é de forma alguma exclusivo dos poetas, pois também os que trabalham com leis confiam mais nas palavras do que na vida em geral. Ou seja: confiam menos nas coisas que vão acontecendo antes ou durante a existência do verbo do que no verbo propriamente dito. Para descrever o aparecimento da Surpresa no mundo não há decreto-lei, mas haverá certamente um verso. Para a descrição da Repetição não existirá um verso, mas um decreto-lei que a entende, explica e prevê. A vida inteira encontra-se, assim, coberta por palavras. Apenas com vinte e seis letras se dá nome a todas as coisas do mundo e se explicam os inteiros movimentos de todas as coisas do mundo. O que se conseguiria, então, se o alfabeto tivesse vinte e sete letras? Há quem considere, aliás, que o brutal desconhecimento de Deus se deve precisamente à ausência desta última letra do alfabeto. E a qualquer Língua falta uma última letra. Terminámos cedo demais e, assim, ficámos com os Mistérios no mundo. Mas isto é outro assunto, senhor Breton.
O que lhe queria mesmo perguntar, senhor Breton, surge, afinal, de uma outra preocupação, e é esta: será que só a realidade onde a expectativa existe é que se pode transformar em verso? Isto é: poderá a poesia ser entendida como os momentos (plural) que antecedem o momento (singular) em que uma cadeira, por exemplo, se parte? Ou, dito de outra forma assim definitiva: parece-me que poesia é, nas palavras, o momento em que a linguagem está prestes a partir-se em dois. E porquê? Porque aí foi colocado um peso excessivo: os versos pousam palavras sobre a linguagem, palavras que, lado a lado, pesam mais do que o suportável. E a frase pode nunca cair, mas até ao fim dos dias promete cair, ameaça cair. E cairá.
Ou não? O que lhe parece, senhor Breton?»

[in O Senhor Breton e a entrevista, de Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2008]



Comentários

10 Responses to “4.ª Pergunta”

  1. Nocturna on Dezembro 6th, 2008 15:03

    Gonçalo M. Tavares tem ,nos últimos anos 2parido” livros em grande quantidade e em quase todas as editoras do País, (passe o ligeiro exagero). Agora com a concentração, há menos editoras; como vai ser Gonçalo ?.
    Os chamados livros negros , são de uma qualidade superior, sobretudo Jerusalém.
    Agora o grupo « o bairro» é outra coisa, de início tinha piada mas tornou-se enfadonho e sem explicação acerca da necessidade de serem escritos, e este último Sr. Breton é absolutamente mais do mesmo .
    Há à volta de Gonçalo M. Tavares uma grande protecção e poucas pessoas terão coragem de dizerem o que pensam, mas enfim ,esperemos por mais um livro preto, para reencontrarmos uma escrita nova e vibrante e sem concessões à facilidade que o Gonçalo prometia
    Nocturna

  2. Ruth Remédios on Dezembro 6th, 2008 19:09

    As opiniões são como as vaginas, cada tem a sua e quem quiser dá-la, dá.

  3. Nocturna on Dezembro 6th, 2008 20:30

    Esperava alguma elegância nos comentários deste blog

  4. lia on Dezembro 9th, 2008 15:36

    E a Ruth dá?

  5. lia on Dezembro 9th, 2008 15:37

    E ao Gonçalito apenas duas palavras: Dinis Machado.

  6. antonio on Dezembro 9th, 2008 17:23

    A minha preferida no sr. Breton é a 7ª pergunta e a conversa com o Kraus. O Enrique Vila-Matas considera o Bairro um dos projectos mais originais que se estão a fazer por esse mundo. Matas chama-lhe “bairro portátil” e escreveu que “é um fabuloso chiado literário que nunca arderá”. O Alberto Manguel em frança também é um entusiasta. Eu gostei muito dos 2 últimos – O sr. walser e o sr. Breton. O Lobo Antunes em Oeiras há umas semanas mostrou admiração pelo gonçalo m. tavares numa bela palestra.

  7. Aníbal on Dezembro 9th, 2008 17:57

    Ruth Remédios, Diácono Remédios, Herman Enciclopédia.

  8. José Mário Silva on Dezembro 9th, 2008 23:10

    Eu gostava de saber se a Nocturna leu mesmo ‘O Senhor Breton e a Entrevista’.

  9. Nocturna on Dezembro 9th, 2008 23:35

    É verdade José Mário, li «O Senhor Breton e a Entrevista» como aliás quase toda a obra de GMT, li e possuo todo o «Bairro», todo os livros pretos, que acho de superior qualidade, confessando a minha preferência por Jerusalém , mas é apenas o meu gosto pessoal, até li alguns dos livros infantis. Se não tivesse lido porque daria a minha opinião ?
    Houve tempo em que os críticos profissionais eram acusados de atribuir estrelas aos livros, sem os ler, apenas pelas amizades, ou capelinhas a que pertenciam.
    Já cá ando faz muito tempo e li muitas críticas feitas por si, e sei que este não é o seu caso.
    Simplesmente, desta vez , não estou de acordo consigo. Sou uma pessoa com muita paciência e o futuro dirá se tenho ou não alguma razão.

  10. José Mário Silva on Dezembro 10th, 2008 0:14

    OK, Nocturna, respeito a sua posição e a sua discordância.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges