60 euros

Enquanto o funcionário da EMEL preenche os papéis, com uma lentidão de predador sádico, penso nos livros que poderia comprar (ou mandar vir da Amazon) com o dinheiro estupidamente gasto assim, na multa mais taxa de desbloqueio. Reparo então nas tatuagens que o funcionário tem no braço: uma rosa de pétalas muito abertas e um textinho em caligrafia arrebicada. Parecem um castigo irónico para os automobilistas em falta, aquela frases dignas de um powerpoint com gatinhos, palmeiras e pôr-do-sol: «A vida não é uma pergunta para ser respondida. É um mistério para ser vivido.»
Olho de novo para o funcionário, corpulento, biceps trabalhados, perfil de quem faz biscates nocturnos à porta de uma discoteca. Releio a máxima pirosa gravada a tinta verde na sua pele. E penso que ainda sou capaz de fazer um post com isto. Talvez não um dos melhores posts, mas certamente um dos mais caros.



Comentários

8 Responses to “60 euros”

  1. Eduardo F. on Abril 27th, 2010 11:14

    Pois é, tivesse sido para ir ver descansadinho o Benfica ou não, a verdade é que a cidade não é elástica e não consegue acompanhar a necessidade crescente de espaço requerido pelos automóveis.

  2. Pedro on Abril 27th, 2010 11:33

    Excelente :-)

  3. José Mário Silva on Abril 27th, 2010 12:14

    Eduardo,

    Deixar o carro mal estacionado para «ir ver descansadinho o Benfica»? Ó homem, vê-se mesmo que não me conhece. Eu era capaz de deixar o carro mal estacionado por todos os motivos, menos por esse. Na verdade, fui multado porque decidi ler só mais um capítulo de ‘O Apogeu de Miss Brodie’, antes de sair do café. Erro crasso. A culpa, no fundo, é de Muriel Spark, mas o dito funcionário da EMEL não se comoveu.

  4. Eduardo F. on Abril 27th, 2010 12:17

    Não o conheço, mas somos os ratinhos que, por tentativa e erro, vamos conhecendo o mundo.

    Ah, e claro, não adianta comover um parafuso.

    Abraço.

  5. Grunho on Abril 27th, 2010 13:18

    A mim também aconteceu uma dessas…
    Tinha ido ao funeral de um tio.
    Acabei por não assistir ao funeral porque andei a gastar tempo (e a pagar, não aceitaram o cartão mas recomendaram-me uma caixa automática a cerca de 200m) para libertar o carrro.

  6. José Catarino on Abril 27th, 2010 13:42

    Não lhe servirá de consolo, mas pior consegui eu fazer, ao deixar caducar uma licença de uso e porte de arma de caça. Nunca sei em que dia estou, há muito que não caço, etc. De mais a mais, sou um estúpido de um cumpridor, pelo que fui à PSP para resolver o problema. Fiquei constituído arguido, com termo de identidade e residência, duas idas ao tribunal, espera-me multa mais pesada que a sua — no mínimo, seis vezes. Também a mim me serviu para posts:
    http://jose-catarino.blogspot.com/2009/12/como-um-cidadao-se-torna-arguido.html
    e
    http://jose-catarino.blogspot.com/2010/01/dura-lex-sed-lex.html
    Enfim, haja saúde, boa disposição e boas leituras.

  7. Jonas on Abril 27th, 2010 13:48

    Eduardo,

    Adiantar, não adianta.

    Mas temos de insistir, perseverar, um dia levaremos os parafusos às lágrimas!

    Não desistirei dos parafusos.

  8. Margarida F. on Abril 27th, 2010 17:00

    Não desistirei dos parafusos é um mote lindo, Jonas. :)

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges