9,69

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Eu vi Usain Bolt a correr no Estádio Olímpico de Pequim. Eu vi aquilo. O homem que partiu devagar (sétimo mais lento no arranque, em oito) e depois galgou o tartan como sei lá o quê, uma máquina elegante, uma coisa feita de aceleração pura. Eu vi o seu corpo a afastar-se dos outros, cada vez mais para diante e os outros mais para trás, um abismo a crescer entre ele e os rivais (coitados, apenas humanos). E depois o final, a certeza da vitória, cabeça virada para o lado (para as câmaras), palmas das mãos para cima, uma pancada no peito, tempo para tudo, até para chegar à meta, pois é, vamos lá atravessá-la nas calmas. E depois o resultado nos ecrãs do estádio: 9,69 s.
Nunca ninguém correu tão rápido. Nunca ninguém antes baixara dos 9,70. Há quarenta anos que o campeão olímpico não chegava ao fim com dois décimos de avanço. Pormenor delicioso: Bolt fez toda a corrida com os atacadores do sapato esquerdo desatados.
Alguém devia fazer um poema sobre isto (mas falem baixo, porque o Manuel Alegre pode estar a ouvir).



Comentários

6 Responses to “9,69”

  1. manuel a. domingos on Agosto 17th, 2008 9:54

    pois é!

  2. Rui Almeida on Agosto 17th, 2008 10:08

    Zé Mário, já te estou a imaginar um dia destes, a ver um dos teus filhos a correr com os atacadores desapertados e em vez de dizeres “aperta os atacadores q ainda cais”, dizeres “aperta os atacadores q ainda bates um record”.
    : )

  3. ana on Agosto 17th, 2008 22:02

    segundo o meu filho abrandou antes de chegar à meta…

  4. Paulo Querido on Agosto 17th, 2008 23:37

    Zé Mário, alguém faça o poema, porque o texto já está escrito. Wonderful.

  5. venancio on Agosto 18th, 2008 18:54

    Porra, o Paulo Querido roubou-me a ideia!

  6. venancio on Agosto 19th, 2008 7:17

    Mas este senhor do Porto, no Público de hoje, também se abeira do poema.

    «Usain Bolt: o homem que dançou o reggae enquanto ganhava
    a medalha de ouro»

    Nas primeiras imagens que vi, da final de 100 metros, intuí que Usain Bolt já tinha ganho antes de começar a correr. Porquê? Porque, ao contrário do seu compatriota Asafa Powell – antigo recordista do mundo e eterno “pé frio” nas grandes competições -, Bolt divertia-se, brincava, fazendo o gesto do arqueiro, meneava as coxas, não era um corredor tenso, como Powell, que enfiava a cabeça por baixo da elástica, e mostrava que a prova o consumia de nervos.
    Os outros atletas estavam sérios: pareciam figuras de betão armado, peões de guerra à espera de serem dizimados. Bolt, não, Bolt nunca esteve em Pequim, nunca saiu da pista de reggae da Jamaica, nunca deixou de dançar com a namorada e beber um daiquiri dry… ah, e esquecia-me, enquanto fez isso tudo, venceu a medalha de ouro da prova rainha do atletismo.
    O triunfo de Usain Bolt também é a vitória póstuma de Bob Marley. Da descontracção, do atletismo em estado puro, ao ritmo da dança do Caribe.

    Rui Marques
    Porto

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges