A angústia da folha em branco

As palavras iniciais de um texto são o seu big bang, o momento em que a matéria começa a existir e a povoar o vazio. «No princípio era o Verbo», diz a Bíblia, falando da criação do mundo. Os escritores, assumam-se ou não como demiurgos, também sabem o que isso é. Tanto o primeiro verso de um poema, aquele que alguns crêem ser oferecido pelos deuses, como a primeira frase de um romance são a porta que dá para a escrita. É preciso, porém, inventar essa porta. Antes dela, há o nada, há o famoso abismo da página em branco. Um abismo que tanto fascina como paralisa. Ou não? Será o dilema da página em branco apenas um mito romântico, arcaico e ultrapassado? Fará esta ideia algum sentido para os autores que escrevem hoje, já não em folhas virgens, já não em luta com a sua caligrafia, por entre borrões de tinta, mas nos processadores de texto dos computadores portáteis?
Para Hélia Correia, a estas dúvidas só se pode responder com outras dúvidas: «Uma página em branco é um papel ou é o mundo inteiro ainda não escrito? Para que há-de ir alguém sentar-se e arrepelar-se, se nenhum texto o convidou para ali? Se não há fome – e agora não há fome –, parece-me esse um desespero fino, como quem sofre de um aperto de sapatos.» Mais do que lutar contra a folha em branco, interessa-lhe «a luta com a página cheia». Isto é, «o labor contra um material grosseiro que se quer afinar». A escrita de valter hugo mãe, romancista e poeta, nasce «invariavelmente da urgência» e por isso não sofre impasses nem hesitações na hora de arrancar: «quando começo tenho já a primeira frase e talvez até o primeiro parágrafo na cabeça». Afonso Cruz, ficcionista que também é músico e ilustrador, reflete muito sobre o que vai escrever, por isso nem chega a sentir ansiedade: «Como dizia Kazantzakis, quando saltamos não há abismo. Quando não saltamos, há abismo.» José Luís Peixoto, que anda pelo país a promover o seu último romance (Livro), não se preocupa demasiado com esta questão: «O branco é só uma cor. E quem determina as várias tonalidades desse branco são os olhos do autor.»
João Tordo, Prémio José Saramago em 2009 (como valter foi em 2007; e Peixoto em 2001), tem o problema resolvido à partida: a folha em branco não o assusta porque as suas páginas nunca chegam propriamente a estar vazias. Logo à partida, estão «cheias de notas soltas, arranques, frases que me vão surgindo, informação, pesquisa, etc.». E a quem se sinta amedrontado diante da tarefa em mãos, deixa um conselho: «o melhor é seguir em frente e depois voltar atrás e reescrever tudo.» Autora de dois romances em que o processo de escrita faz parte da narrativa (Transa Atlântica e Para Interromper o Amor), Mónica Marques também defende que a única forma de vencer o «terror» da página em branco é «ir em frente». Mas ressalva: «O problema são os dias em que não chego a ver o ecrã do Word.»

Se ainda há escritores que preferem escrever à mão, a maioria rendeu-se aos processadores de texto, a que José Cardoso Pires chamava «máquinas de apagar». Peixoto considera-os sobretudo cómodos: «Permitem um movimento ágil dentro do texto e acabam por ser instrumentos bastante românticos. Não só aproximam a escrita da música (o som das teclas, o seu ritmo, a semelhança com o piano), como também têm esse contexto poético de se estar a escrever na luz, num ecrã de luz.» Hélia recorda José Saramago, que dizia ser o cursor, «com o seu pisca-pisca», a chamá-lo para a escrita. «É certo que uma página se torna numa entidade muito mais complexa, quase animada, em cujas profundezas se move um hipertexto tentacular.» Mas a autora de Lillias Fraser não tem a certeza se «os encontros a dois – escritor e texto – são mais profícuos no meio dessa multidão». O suporte da escrita é o que menos preocupa valter hugo mãe: «Sou capaz de escrever páginas inteiras dos meus romances em cadernos pequenos, em rebordos de revistas ou no que seja. Quando a ideia para um texto se intensifica, não a quero perder por nada e uso o que houver.» Ultimamente, até já aconteceu recorrer ao seu novo telemóvel (um Blackberry): «É prático. Ficam as pessoas a pensar que troco mensagens com alguém, o que me disfarça e me permite um certo sossego num momento que, para todos os efeitos, tende para alguma intimidade.»
E depois? Vencida a primeira barreira, como é que se prossegue por ali fora, página a página, até ao último ponto final? A estratégia de Margarida Vale de Gato, tradutora que se estreou este ano como poeta (com o livro Mulher ao Mar), é só uma: «Escrever continuadamente. Gosto de começar pelo princípio e acabar no fim, embora antes e depois haja trabalho. Não escrevo tudo de jacto, nesse momento o texto é um barro fresco que eu estou sempre a transformar. Mais tarde, também burilo, altero, posso até acrescentar versos antes e depois. Mas naquele tempo concentrado da escrita preciso de saber que há um princípio e um fim e um corpo.» Afonso Cruz também precisa de um corpo: «Parto sempre de uma espécie de esqueleto que vai ganhando músculo capítulo a capítulo. Para mim é essencial ter um conceito e depois uma forma, um enredo. Primeiro penso naquilo que quero contar. Depois, havendo a necessidade de apresentar essa mensagem num embrulho que possa entreter, adapto a Odisseia. Mudo o nome de Polifemo e de Penélope, teço a tapeçaria e desteço a tapeçaria até ter uma viagem de ilha para ilha, de ilha dentro de ilha. Até Ítaca.»
Hélia garante que o seu caso é bem simples de contar: «Sou completamente inimputável quanto àquilo que escrevo. Vem a primeira frase quando vem, vem a seguinte quando lhe apetece. Nem sequer as registo. Mas aprendo-as. No fim de um tempo fazem um parágrafo. Dizem-me: “Escreve-nos” como o bolo disse: “Come-me”. Fico então com um grande tamanho, como Alice, e igualmente assustada. Que sei eu? Que vagueio entre seres desconcertantes e que aquilo que se passa me perturba. A Alice fez planos? Não fez. Tirou notas? Tão-pouco. Aprendeu qualquer coisa quando chegou ao fim. Porém, nem ela soube bem o quê.» No caso de Tordo, as histórias começam sempre por existir na cabeça: «Quando começa a aparecer na página, o texto está já dependente de toda uma estrutura desenhada em traços largos na minha imaginação.» A escrita progride de encontro às centenas de notas prévias feitas directamente no processador de texto; as notas em baixo, o texto do romance ao alto da página, as primeiras alimentando o segundo. «Evidentemente, as estruturas mudam imenso no decorrer da escrita, e aquilo que achávamos que era o nosso livro vai-se alterando organicamente ao longo do tempo. Prefiro sempre fazer uma primeira versão em “bruto”, a argamassa do livro, e depois, quando acabo, refazer tudo, capítulo a capítulo. É neste segundo encontro com as palavras que surgem os desafios mais interessantes.» Pelo contrário, valter avança no livro limpando o que fica para trás. «Leio em voz alta tudo o que escrevo, corrijo vírgulas, acrescento frases. Quando chego à última palavra, o livro está pronto a ser entregue ao editor.»
Os hábitos associados à escrita também variam. Mónica Marques, por exemplo, gosta de escrever de manhã. «Sei que estou a acabar um livro quando começo a levar o computador para o quarto e escrevo sentada na cama com ele à frente em cima de duas almofadas e com folhas de texto já impresso em volta.» Hélia diz sofrer de um pecado que já foi mortal, a preguiça. «Como qualquer doença depressiva, não pode combater-se pela vontade ou pelas atitudes optimistas. É preciso uma droga para a curar. A minha droga é a chuva.» Exemplo: o último romance, Adoecer, foi sendo escrito «aos bocadinhos» ao longo de quatro anos e em Outubro de 2009 tinha apenas um terço do que veio a ser o tamanho final. Depois, «nos três meses do Inverno passado, bem chuvosos, fiz os outros dois terços, de rajada».
Afonso Cruz gosta de escrever com um copo de cerveja ao lado, mas resolve os imbróglios narrativos andando a pé, à maneira de Rousseau. «Preciso de caminhar para desatar alguns nós. Passeio para pensar, para resolver todos os problemas que as personagens criam. As ficções criam muitos nós. E o autor é um desatador. Por algum motivo, caminhar ajuda-me a desfazer os coágulos que o enredo acumula nas suas veias.» Já Tordo considera que o maior inimigo da literatura é a vida quotidiana, «uma vez que nos pode convencer, à sua maneira insidiosa, de que há melhores coisas a fazer e melhores lugares para se estar do que sozinho, à secretária, a inventar coisas de que o mundo não necessita nem pediu».
Finalmente, há a questão dos bloqueios criativos. Quem nunca teve um que lance a primeira pedra. E ninguém lança. Mas como resolvê-los? A experiência de valter mostrou-lhe que às vezes basta um telefonema: «No romance o apocalipse dos trabalhadores, eu tinha imaginado a Maria da Graça incrivelmente só, mas a personagem parecia pedir companhia, e quando liguei à minha mãe ela disse-me que tinha conhecido uma Quitéria muito engraçada e que se metia com os homens ou lá o que era. Foram dez segundos de conversa e fiquei logo convencido. Não precisei de mais nada para criar a minha Quitéria.» Afonso Cruz, quando bloqueia, volta atrás: «Se não sei o que escrever, penso sobre o que já escrevi. Julgo que a inspiração é um movimento que se faz para dentro, como nos mostra a respiração. As paragens servem para envelhecer aquilo que escrevemos, tornar as coisas maduras.»
Os chamados bloqueios, Hélia não os conhece. Passa «períodos longuíssimos sem escrita, deixando cair frases por negligência», mas esses intervalos são o seu «tempo infantil», em que os mundos imaginários se bastam a si mesmos. No fundo, tem noção de que não controla aquilo que lhe desperta o ímpeto de escrever: «Não posso mandar na frequência da chuva. Aliás, quando vou para a Irlanda ou para o norte de Inglaterra, faz um sol que parece uma praga a perseguir-me. Como se os elementos me mostrassem que, mesmo deslocando-me, não afecto as condições que a Natureza destinou. Logo, não escrevo. Vocifero contra o céu. E fico a ver como os Britânicos se deitam sobre a relva dos parques, tão felizes.»

[Texto publicado na revista Única, do semanário Expresso]



Comentários

8 Responses to “A angústia da folha em branco”

  1. cjt on Outubro 22nd, 2010 15:09

    «Gostaria de pôr um fim a esta tendência de leitura em computadores, mas parece que mais ninguém quer fazê-lo. Ainda assim, os inconvenientes do processo electrónico são já evidentes durante a concepção do manuscrito. A maioria dos jovens autores escreve directamente nos seus computadores, e então editam e trabalham os seus ficheiros. No meu caso, pelo contrário, existem muitos passos preliminares: uma versão manuscrita, duas que eu próprio dactilografei na minha Olivetti e, finalmente, diversas cópias de versões que a minha secretária inseriu no computador e imprimiu, e nas quais eu incorporei muitas correcções manuscritas. Estes passos perdem-se quando se escreve directamente no computador.»

    Günter Grass, no Der Spiegel: http://www.spiegel.de/international/zeitgeist/0,1518,712715-2,00.html

  2. MCS on Outubro 22nd, 2010 17:23

    Lá dizia a Llansol “o começo de um livro é precioso” 😉

  3. fallorca on Outubro 22nd, 2010 19:23

    «Estes passos perdem-se quando se escreve directamente no computador.» Sou um insuspeito apaixonado pela escrita a lápis (no que estiver à mão), passei a escrever directamente à maquina, assim que a tive, e não concordo que os computador tenha eliminado os «passos» de trabalhar a escrita. Muito pelo contrário, em minha opinião.

  4. henedina on Outubro 22nd, 2010 22:16

    Lia primeira frase e pensei jä li isto. Pois foi com o expresso :)
    Confesso que nao reparei no autor. Parabëns.

  5. Olinda Gil on Outubro 25th, 2010 13:30

    Muitos parabéns por este texto fantástico! Para além do gosto que me dá beber as citações de Hélia Correia, a metáfora encontrada por José Luís Peixoto é também muito sensorial. Gostei também do modo como todas as opiniões dos autores se desenrolam no seguimento do texto.

  6. cjt on Outubro 26th, 2010 9:54

    @fallorca: pois eu, não concordando totalmente com grass (afinal, sempre se pôde apagar ou rasurar), compreendo-o parcialmente.
    aqui há uns tempos fiz a experiência (tinham-me oferecido uma caneta de aparo espectacular – que perdi, como perco quase tudo – e um caderno de capa dura) de escrever no papel e, então, se gostasse minimamente do escrito, publicava no blog. esse blog que mantive durante algum tempo foi o melhor que tive – não, o actual não serve de comparação.
    o que se passou é que, na minha cabeça, passou a existir uma condicionante que, embora estúpida, funcionava como que me obrigando a pensar bem o que iria escrever: a de não querer um papel rasurado.
    ora, experimentemos por um instante escrever no processador de texto do computador, com o compromisso de não usar a tecla ‘delete’, a não ser nos erros de digitação – que no meu caso são muitos – e vejamos o que dali sai.
    logicamente, também poderemos traduzir isto como sendo um espartilho – afinal, se podemos a qualquer momento modificar o texto a nosso bel-prazer, isso não é mais do que liberdade. mas que é giro, lá isso é.
    enfim…

  7. Late Afternoon Blogs: Bibliotecário de Babel | egosciente 2.0 on Outubro 26th, 2010 18:37

    […] o resto do texto clicando aqui. Se por outro lado não quiser ler o resto texto clique aqui. É possível que já tenha tropeçado […]

  8. O princípio da incerteza « No vazio da onda on Outubro 30th, 2010 15:34

    […] Ou a “A angústia da folha em branco”. Ler o texto completo aqui no Bibliotecário de Babel. […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges