A biblioteca adolescente
Michele Gorman é o entusiasmo em pessoa. Enquanto aponta para as fotografias do seu Powerpoint com um laser vermelho, dá pulinhos, faz círculos no ar com os braços e pergunta muitas vezes “Isn’t that amazing?”. Michele Gorman tem a escola toda dos oradores norte-americanos: diz uma piada aqui, dá um exemplo concreto ali e de cinco em cinco minutos resume o essencial da sua experiência em tópicos muito bem arrumadinhos, coroados por uma frase-chave. Descrita assim, Michele Gorman até pode parecer uma qualquer vendedora de banha-da-cobra bem falante. Nada disso. Ela é apenas a responsável pelo ImaginOn, um projecto pioneiro nascido na Biblioteca Pública de Charlotte e Mecklenburg County (Carolina do Norte). O que se pretendeu fazer, naquela pequena cidade periférica, foi inventar um novo tipo de biblioteca para “uma nova geração de utilizadores”: os adolescentes, talvez a faixa etária mais problemática (em todos os sentidos) e aquela em que muitas vezes se perdem, de vez, os hábitos de leitura impostos pela escola.
O Powerpoint de Gorman, exibido em finais de Maio no encontro Oeiras a Ler, diante de uma plateia de bibliotecários portugueses, testemunha um improvável triunfo. Nele se constata a forma como os jovens se apropriaram de um espaço a que tradicionalmente votavam um temor reverencial. Ao ImaginOn, espécie de loft da referida biblioteca pública, só pode aceder quem tenha entre 12 e 18 anos. Ali, não há cartazes a exigir silêncio nem funcionárias míopes a requerer o preenchimento de não sei quantos impressos. Cada um pode fazer o que bem quiser, desde que “respeite o espaço”. Há quem leia debaixo das mesas, deitado no chão, pilhas e pilhas de BD japonesa (sim, a manga não é um género proibido). Há quem participe em sessões de Guitar Hero (sim, o jogo para a PlayStation em que se pode imitar o Eric Clapton). E há quem faça piqueniques com os amigos (sim, pode levar-se comida e bebidas lá para dentro, ó heresia das heresias).
A estratégia para cativar os adolescentes não se fica por aqui. Além de promover actividades paralelas todos os dias, o ImaginOn ainda disponibiliza um estúdio de som e outro de vídeo, workshops de fotografia digital e apoio à criação de páginas nas redes sociais da Internet, como o MySpace ou o Facebook. A biblioteca está ainda representada, com uma agenda própria que inclui encontros com escritores, no universo Second Life.
Tudo isto impressiona, tal como o brilho no olhar de Michele, quando mostra as imagens do seu espaço cool, onde os putos se sentem em casa (ou melhor do que em casa). Convém, no entanto, refrear tanto optimismo. Que os jovens vejam na biblioteca uma alternativa ao centro comercial, ou à alienação da TV, parece-me excelente. Mas já duvido um pouco que esta “geração de utilizadores”, com tanta oferta multimédia ao seu alcance, procure na biblioteca aquilo que ela deve, ainda, preservar e promover acima de tudo. Ou seja, essas coisas antigas, desligadas da corrente e sem versão 2.0 que são os livros feitos de papel e tinta impressa.
[Texto publicado no número 71 da revista Ler]
Comentários
One Response to “A biblioteca adolescente”
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