A cabeça-prisma de uma jovem burguesa

Menina Else
Autor: Arthur Schnitzler
Título original: Fraülein Else
Tradução: José Maria Vieira Mendes
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 106
ISBN: 978-972-795-246-5
Ano de publicação: 2008

Fraülein Else, filha de boas famílias vienenses, passa férias no Fratazza, um hotel de luxo em San Martino di Castrozza. Entre «gente barulhenta a quem a vida corre bem», não destoa: sabe movimentar-se com elegância entre partidas de ténis, passeatas ao monte Cimone e jogos de sedução pueris. Aos 19 anos ainda não fez nada da sua vida, mas não se apressa: o ar à sua volta «está como champanhe», é leve, inebria.
Uma carta expresso, enviada pela mãe, chega então para abalar o idílio italiano. Como acontecera de outras vezes, o pai, advogado de renome que esbanja dinheiro no casino e na Bolsa, afundou-se em dívidas e corre o risco de ser preso, caso não entregue certa verba num prazo muito curto. O problema é que nem a família nem os amigos, escaldados com empréstimos anteriores, se mostram dispostos a ajudá-lo. A única hipótese de salvação passa por convencer Dorsday, um marchand que está precisamente instalado no Fratazza. Acontece que Dorsday tem uma proposta indecente na manga: a troca do dinheiro pela contemplação da nudez de Else. Após muitas hesitações, a rapariga entra em pânico e desce a correr a escada da loucura, até à humilhação pública e ao suicídio (com um copo de veronal).
O que faz a grandeza literária desta novela de Schnitzler, publicada originalmente em 1924, não é tanto a história (drama psicológico de uma burguesa romântica) mas o modo como a narrativa se desenvolve, através de um tumultuoso monólogo interior que regista tudo o que vai cruzando a consciência de Else: imagens, fragmentos de conversas, frases repetidas, inquietações, sonhos, ideias fixas, perguntas sem resposta. A cabeça de Else, prisma que capta (ou distorce) a realidade circundante, é o único local da acção. E Schnitzler, ao mostra-nos de dentro a forma como essa acção implode, transporta-nos, maravilhados, aos limites mais íntimos da experiência humana.
A tradução de José Maria Vieira Mendes é exemplar (uma das melhores, se não a melhor, de entre as que li este ano).

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 72 da revista Ler]



Comentários

2 Responses to “A cabeça-prisma de uma jovem burguesa”

  1. Bibliotecário de Babel – Listas on Janeiro 5th, 2009 1:49

    […] Menina Else, de Arthur Schnitzler, Cotovia […]

  2. ‘Menina Else’ na Cornucópia | Bibliotecário de Babel on Maio 29th, 2009 14:49

    […] por José Maria Vieira Mendes, é a do livro publicado pela Cotovia em 2008 e recenseada por mim aqui. Um excerto: O que faz a grandeza literária desta novela de Schnitzler, publicada originalmente […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges