A cabeça sobe e desce, como que levemente desprendida do pescoço

No final da sua crítica dupla publicada no Expresso de dia 15 (a O Cheiro da Índia, de Pier Paolo Pasolini, e a Uma Ideia da Índia, de Alberto Moravia; duas faces da mesma moeda), o Francisco Frazão escreveu: «É ler a descrição da “maneira de os indianos dizerem sim”, tão bela e comovente que vale o livro: é na página 23 e a “sua religião está nesse gesto”». No jornal, não havia espaço para mais. Mas no blogue podemos espreitar o que diz a tal página 23 do livro do Pasolini:

«Basta ver a maneira que têm de dizer sim. Em vez de concordarem como nós levantando e baixando a cabeça, abanam-na um pouco como nós quando dizemos que não: mas a diferença do gesto é, apesar disso, enorme. O seu não que significa sim consiste num fazer ondular a cabeça (a sua cabeça morena e ondulada com a sua pobre pele negra, que é a cor mais bela que pode ter uma pele) com brandura, num gesto que é ao mesmo tempo doce – “Pobre de mim, digo que sim mas não sei se é possível” – e astuto – “Porque não?” –, amedrontado – “É tão difícil” – e ao mesmo tempo encantador: “Sou todo teu”. A cabeça sobe e desce, como que levemente desprendida do pescoço, e os ombros, também eles, ondeiam um pouco, com um gesto de rapariga que vence o pudor, que se torna afectuosa. (…) A sua religião está nesse gesto.»

E, ao espreitar, confirmamos que o FF tem razão.



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges