A cor da memória

1. Sempre gostei de escritores que escrevem sobre escritores, romancistas no rasto de outros romancistas. As paisagens de Hemingway, Kawabata ou Nabokov percorridas por Olivier Rolin. O prestidigitador Vila-Matas perseguindo as sombras de Kafka, Robert Walser, James Joyce. W. G. Sebald em busca do fantasma de Stendhal no local onde se deu a batalha de Marengo.

2. Daniel Blaufuks não é um escritor-escritor, mas antes um fotógrafo que escreve, um fotógrafo literário. Os seus livros de imagens contam sempre histórias, mesmo quando não têm palavras. Há nele uma atracção fortíssima pela literatura, que já o aproximou de Paul Bowles (My Tangier, 1991) ou mais recentemente de Cesare Pavese. Em Terezín (edição Steidl/Tinta da China), o desafio vem de Sebald. Ou melhor, de uma fotografia que ocupa as páginas 262 e 263 do romance Austerlitz, na edição portuguesa da Teorema (2004).

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3. A fotografia, supostamente tirada em Theresienstadt, mostra uma sala deserta, um escritório arrumadíssimo, estantes até ao tecto cheias de pastas e nem uma folha solta em cima das mesas, o relógio com os ponteiros alinhados nas seis em ponto. Há uma estranheza nesta imagem, uma perfeição exagerada, como se estivéssemos, diz Blaufuks, diante de um «cenário para uma peça incompleta».

4. Obcecado com a fotografia, Blaufuks procurou-a por todo o lado. Em vão.

5. Entretanto, por uma «estranha série de coincidências», ficou na posse dos diários que Ernst K., um empregado de escritório judeu, foi escrevendo entre 1926 e 1930. Blaufuks fotografou essas agendas e mostra-nos a caligrafia do cidadão anónimo, a sua vida banal: namoros, sonhos de se tornar escritor, postais, notas soltas, uma madeixa de cabelo embrulhada em celofane. Mais tarde, descobriu que Ernst K. foi transferido para Theresienstadt em 1942, quando a cidade checa já se transformara num lugar de morte.

6. De entre as páginas das agendas de Ernst K., surge uma fotografia que é ao mesmo tempo um aviso e uma metáfora.

7. Aviso: as imagens podem enganar. Vemos, de perfil, dois homens e uma mulher. Aparentemente estão na praia, segurando papagaios de papel, enquanto passam barcos muito ao longe, no horizonte. Mais de perto, porém, constatamos que o mar afinal é uma parede, os barcos ao longe talvez chaminés para lá do muro. E os papagaios de papel? Lâminas de gelo, apanhadas do chão num dia de Inverno.

8. Metáfora: as lâminas de gelo, matéria que se desfaz e queima as mãos que a seguram.

9. Theresienstadt. Terezín, em checo. A história é conhecida. Sebald conta-a no seu livro. Blaufuks repete-a e acrescenta pormenores. A cidade fortificada que os nazis decidiram, em 1941, transformar em gueto para os judeus da Boémia e Morávia, entreposto antes do envio para os campos de extermínio, mais a Leste. Muitos morreriam antes da viagem, porque Theresienstadt, com capacidade para sete mil pessoas, chegou a ter 50 mil dentro das muralhas, à mercê da fome, da sede e da exaustão provocada pelos trabalhos forçados.

10. Em 1944, os nazis aceitaram uma visita da Cruz Vermelha, transformando-a num dos maiores embustes propagandísticos de que há memória. Cumprido o plano de embelezamento da cidade (lojas abertas, cafés cheios, crianças a brincar nos jardins floridos, bibliotecas, jogos de futebol, concertos de música clássica), os inspectores elogiaram o simulacro de normalidade e a Cruz Vermelha desistiu de visitar outros campos de concentração.

11. Entusiasmados com este sucesso, os alemães fizeram um documentário sobre a falsa Theresienstadt edénica, habitada por judeus sorridentes – uma ficção abjecta de tão cínica, apogeu do cinema como mentira. No fim da guerra, o filme perdera-se mas foram descobertos vários fragmentos.

12. Quando por fim visitou Terezín, Blaufuks descobriu facilmente a sala que aparece no livro de Sebald e fotografou-a do mesmo ângulo. A estranheza mantém-se, só que agora muito mais nítida.

13. Num DVD que vem com o livro, o fotógrafo concretiza uma ideia do protagonista do romance de Sebald: desacelerar as imagens do filme nazi, para que «as coisas e pessoas até então ocultas» se tornem visíveis. Austerlitz buscava em câmara lenta o rosto perdido de sua mãe; Blaufuks um rasto de Ernst K. Nem um nem outro tiveram sorte.

14. Blaufuks conferiu às imagens do sórdido filme um ténue tom avermelhado. É a «cor da memória», diz ele. Nada de sépia, nada da nostálgica aura das fotografias antigas. Um tom avermelhado. Como o do sangue seco. Como o da ferrugem.

[Versão ampliada de um texto publicado no n.º 94 da revista Ler]



Comentários

One Response to “A cor da memória”

  1. Ralph Thompson on Outubro 18th, 2010 6:13

    great post thanks

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges