A crónica e o peixe do dia seguinte

A propósito do lançamento de um livro de crónicas de Manuel António Pina, tenho lido, em vários lados, que o poeta vincava o carácter efémero dos seus textos jornalísticos referindo que, no dia seguinte a serem publicados, eles já só serviam para embrulhar o peixe. A referência vem sempre com aspas e atribuição («como Manuel António Pina costumava dizer»), o que se me afigura um completo disparate. É que esta frase, desculpem lá, oiço-a eu desde que meti o pé numa redacção. Não é uma frase que o Manuel António Pina costumava dizer; é uma frase que todos os jornalistas mais velhos, nomeadamente os da geração do Pina, disseram (e ainda dizem) aos novatos que chegam aos jornais, convencidos que vão desvendar o próximo Watergate e mudar o curso da História. É um lugar-comum que tem o carácter definitivo e certeiro da maior parte dos lugares-comuns, mas não se deve colar a um homem que inventou centenas de frases maravilhosas (as melhores, em forma de verso) que são só dele. Essas merecem o «como o Manuel António Pina costumava dizer» ou «como o Manuel António Pina escreveu». A metáfora fácil sobre o utilitarismo do papel de jornal, não.



Comentários

One Response to “A crónica e o peixe do dia seguinte”

  1. margarida f. on Abril 16th, 2013 10:26

    A propósito do mesmo tema:

    https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200839034360495&set=a.1878220757578.112056.1303027995&type=1&theater

    e

    uma frase que circula em jpeg no Facebook: «O problema das citações na internet é que nunca se pode confirmar a sua validade – Fernando Pessoa»

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges