A entrevista do valter (excertos)

(fotografia de Nelson d’Aires)
Na última edição do suplemento ípsilon, do Público, Isabel Coutinho publicou uma notável entrevista com valter hugo mãe, a propósito do romance o apocalipse dos trabalhadores (QuidNovi). Transcrevo, de seguida, algumas das melhores passagens:
«Enterneço-me mais com a perdição das mulheres do que com a dos homens. As mulheres sobrevivem muito mais, lutam muito mais, resistem muito mais. Mas se tiverem de morrer fazem-no sem tanta hesitação. Isso fascina-me, seduz-me e enternece-me.»
«Vivo na parte piscatória de Vila do Conde, nas Caxinas, o espaço mais agreste. Vivo lá desde os nove anos e ali as pessoas são endurecidas. Quem não os entende acha que são más pessoas, mal-educados ou brutos. Há quem tenha medo. Vistos de perto são pessoas impressionantes porque são rochedos humanos. Perdem familiares no mar. Há gente que perde marido e filhos num ano. Ficam sozinhas e sobrevivem com um mutismo, uma dignidade impressionantes. Continuam a sair à rua, a lavar-se, a pentear-se. Vestem um preto integral, não se vê outra cor no corpo, assistem às missas, compram o pão, param cinco minutos a conversar seja com quem for, existe uma profundidade na imagem dessas mulheres que me impressionou. (…) Se eu fosse uma mulher de 50 anos a quem quatro filhos e um marido morressem num mês no alto mar, tombava de uma ponte abaixo. Mas elas sobrevivem. Sabem qualquer coisa que nós não sabemos.»
«Tenho uma concepção estranha da morte; acho que é a nossa grande oportunidade. Se não for a morte que nos leva a algum lugar absolutamente incrível, não vai ser rigorosamente mais nada.»
«Cresci em Paços de Ferreira como uma coisa selvagem. O perigo era zero, vinha todo da nossa cabeça. Perigoso era se houvesse um buraco que não se visse e nos atirássemos lá para dentro. Às vezes sabia-se que os miúdos rachavam a cabeça e partiam as pernas, mas os perigos eram estes. Eram nossos, ninguém nos faria mal.»
«Em vez de perguntar o significado das palavras [à minha mãe], aprendia a escrever, guardava tudo e a folha de papel era como uma caixinha. Era como se a minha cabeça entornasse coisas e eu depois podia entorná-las para dentro de uma caixinha. Quis ir à escola aprender aquela magia. Ali comecei a coleccionar as minhas primeiras palavras. A ter com a escrita e com o texto uma relação fantasista em que a realidade era composta por coisas que nem toda a gente vê. Cada um tem que procurar as suas invisibilidades.»
«A dada altura percebi que as minúsculas ligam o texto, aceleram-no, precipitam o leitor. As vírgulas ficam menos virguladas e os pontos menos pontuados. Então as pausas tendem a ser mais breves. Há uma aceleração que se junta a uma certa urgência da história. O leitor fica sem travões. (…) Ao que sei, no início, a primeira reacção é um choque. As pessoas ficam aflitas, não sabem onde parar, não percebem onde a frase acabou. Mas o leitor menos preguiçoso habitua-se ao fim de quatro páginas e consegue deslizar. Consegue seguir naquela leitura com menos travões com alguma destreza. Fico contente quando percebem que este tipo de pontuação os leva mais rápido ao fim da história.»
Aqui pode ler-se a entrevista na íntegra, incluindo as linhas que desapareceram na versão em papel.
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