A geração Y afinal gosta de livros

Diz-nos o senso comum que as gerações mais novas (18-30 anos) recorrem cada vez menos à informação em suporte físico, contida em livros ou jornais de papel, optando antes pelo saber imaterial disponível na Internet.
Acontece que o senso comum é traiçoeiro. Eis o que nos revela um post do blogue adrian&pandora (sobre “adolescentes e jovens adultos em bibliotecas públicas”):

«Um estudo da Pew Internet & American Life Project revela que, apesar de a Internet ser usada como principal fonte de informação, a Geração Y — 18 aos 30 anos —, é uma das maiores e mais regulares frequentadoras de bibliotecas, com 65% dos inquiridos desta faixa etária a afirmarem que acima de tudo procuram o livre acesso à web e 58% procuram referências literárias. Ainda de acordo com este estudo, os internautas são duas vezes mais propensos a visitarem as unidades documentais do que os que não utilizam a web. Cita-se uma das autoras do estudo, Leigh Estabrook, professora emérita da Universidade de Illinois: “Esta descoberta vira de cabeça para baixo a nossa opinião sobre bibliotecas (…) O uso da internet parece criar uma fome por informação e são as pessoas que usam muito a rede que parecem estar mais dispostas a visitar bibliotecas”.
Curiosa é também a comparação de dados entre este estudo e um outro, realizado em 1996, em que as pessoas da já referida faixa etária mencionavam, à altura, que as bibliotecas se tornariam cada vez menos relevantes. O que leva a autora a afirmar que “10 anos depois, os irmãos e irmãs mais novos dessas pessoas são os mais ávidos usuários de bibliotecas”.»



Comentários

9 Responses to “A geração Y afinal gosta de livros”

  1. BiblioFilmes on Janeiro 7th, 2008 19:27

    A sua conclusão, na nossa humilde opinião, está errada, pois o estudo revela uma outra tendência.

    Apesar dos maiores utilizadores das bibliotecas, de acordo com o estudo, ser a Geração Y, eles fazem-no principalmente pelos computadores e internet que se encontram nas bibliotecas americanas, mais que pelo suporte físico, como os livros,etc.

  2. João André on Janeiro 8th, 2008 10:14

    Cobcordo em parte com o/a BiblioFilmes. Será talvez porque cada vez mais as bibliotecas fornecem pontos de acesso à net que há esta procura. os dados estariam portanto algo viciados. Poderia ser o mesmo que perguntar a apreciadores de boa comida se frequentam restaurantes.

    Por outro lado, mesmo que se admita que não é essa a motivação, teríamos que levar em linha de conta a probabilidade de a amostra estar mal escolhida por um outro lado: estamos a falar de pessoas que são, essencialmente, estudantes. Depois de um período em que podiam ir à net copiar sem modificar o que fosse de um relatório, agora isso não é possível, dada a eficácia de sistemas como o Google. Isso faz com que se refugiem de volta nas bibliotecas para procura em livros ou, muito mais provável, nas colecções digitais das bibliotecas: artigos e livros científicos que a biblioteca subscreveu e aos quais é possível aceder a partir de computadores localizados na mesma.

    A pergunta teria de eliminar a possibilidade de trabalho para poder chegar a estas conclusões, as quais me parecem excessivamente rápidas e optimistas.

  3. José Mário Silva on Janeiro 8th, 2008 11:40

    Caro/a Bibliofilmes,

    O meu erro foi não colocar um ponto de interrogação no título do post. De facto, parece que estou a afirmar algo que apenas se pode inferir, não só do estudo como dos comentários ao estudo que o blogue citado referiu. E estes sugerem que, além da procura de acesso à Internet, pode haver um novo interesse pelas “unidades documentais” das bibliotecas. Falta saber o que são ao certo as “unidades documentais”: livros ou ficheiros digitais?

    João André:
    Percebo o teu argumento, algo retorcido mas verosímil. Voltamos a falar daqui a outros 10 anos.

  4. Gaspar Matos on Janeiro 8th, 2008 13:34

    “Asked whether they would go to a library in the future to help them solve problems, 40% of Gen Y said it was likely they would go, compared with 20% of those over age 30.”

    http://www.pewinternet.org/pdfs/Pew_UI_LibrariesReport.pdf

    Uma das grandes conclusões deste estudo é precisamente a supracitada. Após a viragem do milénio, em que se advogava o fim das bibliotecas, a Geração Y manifesta a sua intenção de continuar a frequentá-las. Porquê? É natural que a utilização instrumental se mantenha: utiliza-se a biblioteca para estudar porque apresenta as condições necessárias. Mas, atenção: a explicação dada por João André poderá não ser a mais correcta. O estudo incide sobre bibliotecas públicas e, salvo erro, a grande maioria não assina repositórios científicos digitais. Também em Portugal isso acontece. Veja-se o caso da B-On: a maior parte dos aderentes são universidades, hospitais e centros de I&D. O que sucede actualmente – e aí já concordo com o João André –, é que a maior parte dos trabalhos já não podem ser construídos na lógica “copy+paste” e, em consequência, a biblioteca acaba por ser o local ideal para agilizar as tarefas académicas: a Internet é gratuita e agiliza a pesquisa, e as fontes bibliográficas da Biblioteca validam a informação. Daí que me pareçam fidedignas as informações veiculadas pelo estudo. Aliás, assisto a isso diariamente, na biblioteca onde trabalho. Os jovens são o “grosso” dos utilizadores e cada vez mais nos sugerem a aquisição de literatura técnica (manuais de medicina, engenharia, gestão). Se, ao satisfazermos os seus pedidos, estamos a cumprir com uma das missões da Biblioteca Pública, óptimo! Como maximizamos e aproveitamos a sua presença? Ainda mais fácil: com este público alvo dentro de portas, há que empreender acções de promoção de leitura e actividades culturais, transmitindo-lhes a imagem – real –, de que a biblioteca pode ser mais do que uma sala de estudo.
    Mas que os mesmos acedem a informação bibliográfica, disso podem ter a certeza. E essa necessidade cresce à medida da progressão académica do indivíduo.

  5. João André on Janeiro 8th, 2008 14:22

    Zé Mário, a lógica algo retorcida pode ter saído de ter escrito o texto a dois tempos, com uma pequena interrupção pelo meio.

    Em todo o caso, o Gaspar Matos apontou muito bem um erro no meu comentário: o estudo reporta-se a bibliotecas públicas, não às escolares. Neste aspecto, o único ponto em que poderia manter a ideia veiculada atrás seria mesmo no grau de instrução: pessoas mais jovens, hoje em dia, são mais instruídas e, como tal, buscam ainda mais informação. Claro que este raciocínio é altamente falível, sei disso, portanto estou também na situação de esperar para ver.

    Ainda assim, note-se esta passagem do mesmo estudo:

    «In a national phone survey, respondents were asked whether they had encountered 10 possible problems in the previous two years, all of which had a potential connection to the government or government-provided information. Those who had dealt with the problems were asked where they went for help and the internet topped the list:

    # 58% of those who had recently experienced one of those problems said they used the internet (at home, work, a public library or some other place) to get help.
    # 53% said they turned to professionals such as doctors, lawyers or financial experts.
    # 45% said they sought out friends and family members for advice and help.
    # 36% said they consulted newspapers and magazines.
    # 34% said they directly contacted a government office or agency.
    # 16% said they consulted television and radio.
    # 13% said they went to the public library. »

    Ou seja, 13% disse ir à biblioteca pela própria biblioteca. Os restantes utilizadores de bibliotecas, nesta lista apenas, estão integrados nos que o fazem para ir à internet.

    Claro que prefiro que as pessoas continuem a ir às bibliotecas, sem dúvida nenhuma, seria uma óptima notícia.

  6. BiblioFilmes on Janeiro 8th, 2008 17:02

    Caro José Mário Silva,

    Realmente das fontes que referiu para a sua postagem e mesmo outros comentários ao estudo em Portugal, poderia criar-se essa ideia que colocou no título, com ou sem interrogação.

    A nossa postagem sobre este tema http://bibliofilmes.blogspot.com/2008/01/gerao-y-e-tendncias-sobre-frequncia-das.html

    e que nos levou ao comentário aqui foi baseada num artigo da Reuters, que no seu 1º parágrafo é bastante elucidativo:
    ” More than half of Americans visited a library in the past year with many of them drawn in by the computers rather than the books, according to a survey released on Sunday.”

    Aliás, o relatório da PEW, baseado numa consulta nacional por telefone, como já referido no comentário do João, é muito mais vasto:
    http://www.pewinternet.org/PPF/r/231/report_display.asp

    “There are several major findings in this report. One is this: For help with a variety of common problems, more people turn to the internet than consult experts or family members to provide information and resources.

    Another key insight is that members of Gen Y are the leading users of libraries for help solving problems and in more general patronage.”

    Vitor M

  7. Gaspar Matos on Janeiro 8th, 2008 18:50

    O ultimo estudo (2001) a que tenho acesso, e relativo à biblioteca onde trabalho, afirma que:

    “60% dos utilizadores tinham idades compreendidas entre os 18 e 25 anos e 14% pertenciam à faixa etária 0-18 anos, sendo as obras consultadas, à altura, as seguintes e com os rácios correspondentes:

    28,9% – monografias técnico-profissionais;
    27,2% – dicionários ou enciclopédias;
    26,4% – livros escolares (p.ex., os exames de química para o 11º ano);
    17,2% – estudos ou ensaios.”

    O link é este: http://adrianepandora.blogspot.com/2007/10/o-livro-errado.html

    Que o façam pela gratuitidade da Internet ou como mera utilização instrumental – só pra estudar – não o nego, mas que cada vez mais validam as suas recolhas com informação bibliográfica, isso é certo. E o que interessa é tê-los “cá dentro” e empreender actividades que motivem a literacia e a cultura.
    A grande conclusão do estudo em causa é o de concluir que os jovens não estão a fugir das bibliotecas, muito pelo contrário. E isso é que é de destacar (e aproveitar!).
    Um abraço,

  8. John Doe on Maio 5th, 2008 12:12

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  9. Fernanda Tavares on Maio 18th, 2008 5:47

    Fernanda Tavares

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges