A História que não foi

Sete Partidas
Autor: Manuel Alegre
Editora: Edições Nelson de Matos
N.º de páginas: 40
ISBN: 978-989-95597-6-9
Ano de publicação: 2008

«Pode escrever-se um poema quando as águas / irrompem no caderno e as montanhas se abrem / e do outro lado subitamente aparece // o país que não há». Assim começa Sete Partidas, o mais recente trabalho poético de Manuel Alegre, com entrada directa para o lote das suas obras menores.
Se ignorarmos o tom demiúrgico, a prosódia demasiado solene e os efeitos verbais do costume («um rosto um resto / um rasto um cheiro um som coisa nenhuma»), entrevê-se neste livro uma curiosa revisitação da História de Portugal, lírica e utópica como convém a quem se desgosta de ver «em toda a parte o mesmo / à mesma hora nos telejornais». Partindo do que «podia ter sido» mas «não foi», Alegre debate-se com a figura do Infante D. Pedro em Penacova, no momento em que este abdica de atacar militarmente D. Afonso I, consumido por uma hesitação que inverte «o sentido do futuro». Numa reflexão sobretudo política, o deputado do PS vê «nesse instante de renúncia» a grande oportunidade perdida de transfigurar o país e «derrotar a inveja/ o mal dizer a mesquinhez e a mentira/ essas velhas doenças que são o cancro/ de Portugal».
Fazendo a ponte entre o presente (assinatura do Tratado de Lisboa) e o passado (a carta escrita por D. Pedro em Bruges, em que se esboçavam reformas para desenvolver o país, nunca cumpridas), Alegre avança «pelos campos da memória», reconstruindo simbolicamente as viagens que o irmão de D. Duarte e D. Henrique fez pelas «sete partidas do mundo».
O que o «poema» procura, acima de tudo, é o rasgão na ordem imutável do tempo, através do qual possamos assistir ao espectáculo da nossa própria catástrofe anunciada: «Caminha-se de encontro ao desencontro / e mesmo quando há ganho vem a perda / o segredo da História é o momento em que / tudo podia ser diferente. E o poema escreve-se nesse breve senão.»

Avaliação: 5/10

[Texto publicado no número 72 da revista Ler]



Comentários

4 Responses to “A História que não foi”

  1. Bernardo Fonseca on Setembro 28th, 2008 21:31

    quererá referir-se a D. Afonso V, por certo…

  2. o puma on Setembro 28th, 2008 22:07

    São rosas senhor

  3. José Mário Silva on Setembro 29th, 2008 5:09

    Bernardo,

    Não, refiro-me (ou melhor, o poeta refere-se) a D. Afonso I, primeiro duque de Bragança.

  4. Bernardo Fonseca on Setembro 29th, 2008 9:25

    sorry, só depois li o poema…

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges