A maravilha da internet

A internet é maravilhosa porque por vezes consegue mitigar, através dos seus infinitos recursos e labirínticos meandros, os nossos sentimentos de culpa. O vila-mateano/perequiano que há em mim não perdoou ao sportinguista que há em mim a ida, ontem à noite, a Alvalade. Mas depois, de volta a casa, o vila-mateano/perequiano que há em mim, aproveitando a euforia justificada do sportinguista que há em mim, pôs-se à procura no Google. E encontrou, tchanã, o texto integral da conferência lida no CCB (belíssimo, vila-mateano e perequiano até à medula; como o sportinguista que há em mim logo admitiu, extasiado e ainda com aquele brilho nos olhos que não o abandonou desde o momento em que Pereirinha fez gato sapato da ala esquerda do Benfica).
Continuando a escavar no Google, já esta tarde, descobri este relato da sessão e percebi que Vila-Matas não se limitou a ler o texto, acrescentando-lhe muitas daquelas boutades típicas do Enrique («Chamo-me Eric Satie, como todo o mundo» e outras que tais). O vila-matiano/perequiano que há em mim entristece-se sobretudo com aquela referência à «sala surpreendentemente vazia», onde o tradutor Fallorca, de «camisola de lã cor de tijolo», não deixou de marcar presença (suponho que num intervalo da passagem de Dietario Voluble para português), embora ainda não tenha escrito nada sobre o assunto no blogue da Frenesi.
Entretanto, localizo igualmente o texto que abre com o piscar de olho a Satie (foi lido a 1 de Agosto de 2008, na Cátedra Anagrama da Universidade de Monterrey, México, tal como Café Perec). E assim de repente sinto que não perdi tudo, as palavras de Vila-Matas afinal acabam por chegar a mim pelos atalhos digitais, mas aquela «sala surpreendentemente vazia» continua a lembrar a minha ausência, o advérbio afiado como uma acusação.



Comentários

One Response to “A maravilha da internet”

  1. sara on Fevereiro 24th, 2009 12:03

    o advérbio não uma intenção acusatória. :)

    é simples demonstração de espanto.

    já ganhei o dia, com o link para o texto integral.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges