A melhor profissão do mundo

Sei que vou parecer exagerado. Ou ingénuo. Não importa. A verdade é esta: num mundo em que 99,99% das pessoas se queixam do emprego que lhes coube, eu posso gabar-me de ter a melhor profissão do mundo. Não estou na lista da Forbes, não tenho a vida de lorde do Cristiano Ronaldo em Manchester, não sou estrela pop, não pertenço a elites, não gozo as supostas vantagens da fama (nem sofro, já agora, com as respectivas desvantagens). Mas tenho a melhor profissão do mundo. Leio, leio, leio e depois escrevo, escrevo, escrevo. Leio para escrever. Escrevo sobre o que leio. Vivo rodeado de livros. E pagam-me, ainda por cima. Só o suficiente, mas pagam.
Para um bibliófilo compulsivo e sem grandes ambições materialistas, isto é o mais próximo da ideia de Paraíso a que se pode chegar. Um Paraíso borgesiano, claro: forradinho de estantes do Ikea, abauladas com o peso dos volumes em cujas páginas de rosto aparece, como um ferrete, o carimbo a dizer “oferta do editor”. Um Paraíso que se transforma em Inferno quando as novidades do mês, lá no topo dos vários estratos geológicos de papel que se debruçam das estantes, nos atiram à cara o facto de ainda não lhes termos dado a atenção de que se julgam merecedoras.

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É um trabalho ao mesmo tempo sublime e ingrato. Ingrato porque ninguém, nem mesmo o mais voraz dos leitores, consegue acompanhar tudo o que de interessante se publica (magro consolo: saber que certos romancistas passam às vezes dois anos a escrever um livro que devoramos em dois dias). Sublime porque permite – aliás, exige – a entrega à leitura compulsiva, sem complexos de culpa nem distracções. Lembram-se daquele poema de Pessoa intitulado Liberdade? Pois é exactamente ao contrário: “Ai que prazer cumprir um dever. Ter um livro para ler e fazê-lo.”
Entretanto eles vão chegando, todos os dias ou quase, de mansinho. Formam pilhas cada vez mais altas, cada vez mais instáveis. Durante muitos anos, essa periclitante cordilheira dos Himalaias ocupou a minha mesa no jornal, para espanto e inveja dos camaradas de outras secções. Agora que trabalho por conta própria, as montanhas transferiram-se para o escritório lá de casa, para a sala de estar, para os corredores, para o quarto – lugares onde os livros vão disputando o meu interesse, numa comovente e darwiniana struggle for life. Refastelado no sofá, eu selecciono, elimino, premeio os mais aptos, sabendo que com o tempo acabarei por receber, em envelopes de papel pardo, uma biblioteca inteira a conta-gotas, enviada por uma espécie de Amazon ainda mais virtual que a Amazon virtual, uma Amazon que me impinge muito lixo (é verdade) mas nunca me pede o número do cartão de crédito.
O carteiro toca. Pelo intercomunicador diz “mais uma encomenda para si” e depois leva muito tempo a subir as escadas, como quem estica a corda da expectativa até ao limite. Encontra-me à porta de casa, sorridente e ansioso. Antes de o entregar, avalia o peso do pacote. Nunca precisei de lhe explicar o porquê do meu sorriso e da minha ansiedade.

[Crónica publicada no n.º 69 da revista Ler]



Comentários

2 Responses to “A melhor profissão do mundo”

  1. Ana Tarouca on Maio 8th, 2008 12:01

    Amei. É uma enome riqueza podermos viver daquilo que amamos fazer. Pagarem-nos para fazermos aquilo que até fariamos de graça. Ainda não cheguei aí. Ainda!:) Não trabalho por conta própria. Mas gosto da minha profissão. Sou bibliotecária e acho que tenho muita sorte.
    Bom trabalho!
    Ana

  2. Blogue Rascunho.net » Blog Archive » Isto em recibos verdes dá… on Maio 9th, 2008 4:13

    […] as malas na periferia. Como vamos para os velhos bairros dos centros urbanos? Assim? Ou…) O projecto continua de […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges