A memória dos mortos

Anatomia dos Mártires
Autor: João Tordo
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 271
ISBN: 978-972-20-4875-0
Ano de publicação: 2011

Logo na primeira página do quinto romance de João Tordo, surge uma espécie de linha de força programática: a ideia de que a nossa existência é «indissociável da memória dos mortos». Quando os queremos resgatar ao esquecimento, ou aos equívocos da História, eles acabam «por assombrar o resto dos nossos dias». É precisamente isso que acontece ao narrador de Anatomia dos Mártires. Jornalista ambicioso, à espera de uma oportunidade para brilhar no suplemento de fim-de-semana, ele decide abordar o tema do martírio num artigo em que associa Catarina Eufémia — a camponesa assassinada em Baleizão, símbolo da resistência anti-fascista — ao suicídio de um místico americano, que saltou do 37.º andar de um prédio em Nova Iorque com um manuscrito amarrado ao peito (segundo o qual o verdadeiro silêncio é o único caminho de aproximação a Deus e aos seus desígnios).
O artigo desperta uma onda de protestos que ganham uma dimensão preocupante quando Raul Cinzas, o editor-chefe do jornal, entra em coma depois de ser atacado na rua por desconhecidos. Cinzas, conhecido por ser um «velho comunista» (mas menos empedernido do que aparenta), saíra em defesa do «jovem» arrogante e este, ainda aturdido com a magnitude das reacções ao texto e com o ataque ao seu superior hierárquico, decide lançar-se numa investigação séria sobre a história de Catarina Eufémia. Para compreender o presente, ele sente que é preciso esclarecer o passado, mas depressa se descobre perdido num «labirinto cheio de espelhos». A partir das muitas versões contraditórias sobre os acontecimentos de 19 de Maio de 1954 – da questão da suposta gravidez da ceifeira aos gestos exactos do assassino (o tenente Carrajola, da GNR) – impôs-se uma narrativa que sobrepõe a «Catarina-mártir» (desde então o símbolo maior da luta comunista no Alentejo) à «Catarina-mãe» ou à «Catarina-mulher», predispostas estas a viver e não a morrer. Cinco décadas após os acontecimentos, o resgate da Catarina real – a de carne e osso, não a lendária – é impossível. Porque atrás do mito não há nada: ele assenta apenas em «meias-verdades» e em «meias-mentiras» que conduzem inevitavelmente ao «cepticismo mais absoluto ou ao dogmatismo mais desenfreado».
Enquanto se entrega à busca obsessiva de um sentido para a história da ceifeira que morreu a exigir um pagamento justo para o trabalho duro, mas também paz, o narrador coloca entre parêntesis as outras frentes da sua vida: o romance com Lorna Figgis, uma irlandesa cheia de segredos; a relação conflituosa com o pai (um antigo maestro à beira da loucura, sempre a escavar o fosso geracional que o separa do único filho); os encontros tensos com Tom Kapus, o biógrafo de Francis Dumas, o tal suicida místico americano; ou a amizade com Afonso, um gestor de investimentos em fundos que perdeu tudo com a crise financeira mundial (tema que atravessa o romance de ponta a ponta, como um inquietante ritornelo).
A dada altura, o protagonista convence-se de que resolvendo o mistério de Eufémia, a mártir involuntária alentejana, poderá encontrar a «chave» para as suas restantes histórias. Pura ilusão. O mistério não se resolve, pelo contrário. E é ele que se deixa apoderar pela «funesta sombra de Catarina», como outros se tinham apoderado dela antes. Só depois de dar quase tudo por perdido – o emprego, o amor, as expectativas de conseguir transformar a morosa investigação num livro – é que a libertação surge, num final épico e optimista, com vozes ao alto, bandeiras ao vento, promessas de sublevação e a memória dos mortos finalmente resgatada.
João Tordo conhece bem as técnicas narrativas, sabe criar conflitos entre as personagens e domina a difícil arte do diálogo. A prosa, porém, ressente-se de uma certa rigidez estilística, do abuso de adjectivos, de uma grandiloquência nem sempre justificável e da vaga sensação de que tudo nesta escrita obedece a uma fórmula. Os livros de Tordo são densos, coesos, eficazes, mas muito construídos, muito certinhos, pouco dados à saudável subversão das regras e dos códigos.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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