A ‘Mensagem’, tal e qual
A 1 de Dezembro de 1934, Fernando Pessoa publicou Mensagem (com chancela da Parceria António Maria Pereira), o único livro de poemas em português que chegou aos escaparates antes da sua morte, ocorrida exactamente um ano mais tarde. No passado dia 1, assinalando o 75.º aniversário dessa primeira edição, a Guimarães lançou um livro que materializa uma ideia arrojada: a «clonagem» do dactiloescrito original de Pessoa, guardado na Biblioteca Nacional, junto com o restante espólio do poeta.
«Chamamos-lhe edição clonada porque não se trata de um mero fac-simile, é mais do que isso», explica Paulo Teixeira Pinto, proprietário da Guimarães, a cujo universo editorial (agora reforçado com a Verbo e a Ulisseia) pertence a Ática, que durante décadas publicou a obra de Pessoa. Os técnicos da Biblioteca Nacional torceram o nariz ao termo «edição clonada», mas Teixeira Pinto defende-o: «Nesta ideia de clonagem está implícita uma espécie de duplicação genética. O fac-simile é sempre uma cópia que se percebe ser uma cópia. A nossa versão da Mensagem, pelo contrário, é tão semelhante ao original que não se distingue daquele».
A edição deste livro «absolutamente único» começou a ser preparada, quase em segredo (isto é, com o conhecimento de um «círculo restrito»), há cerca de um ano. Acompanhando de perto todo o processo, que classifica como um «acto de paixão», Teixeira Pinto não olhou a custos nem a limitações de qualquer ordem para conseguir a réplica perfeita. Houve materiais importados de Itália e da Turquia, testes sucessivos para afinar os contrastes e um esforço para captar tudo o que está no dactiloescrito, das anotações e emendas de Pessoa (o primeiro título da obra — Portugal — riscado e substituído) às dobras do papel e respectiva transparência, passando pelas frases que foram sendo inscritas, a lápis, nas folhas de guarda (com a menção, por exemplo, da compra a António Fumaça, a 1 de Outubro de 1965; e da microfilmagem, a 9 de Junho de 1997). No índice final, escrito à mão pelo poeta, podem até perceber-se, no topo da página, as marcas de um clipe oxidado.
Jerónimo Pizarro, investigador pessoano, conhece bem o dactiloescrito original e mostra-se impressionado com a qualidade gráfica: «É um trabalho impecável, uma edição de museu, erudita, mas que permite dialogar com um arquivo inacessível ao público mais vasto.» A questão é saber a quem se dirige um livro com características tão particulares. «Este é sem dúvida um objecto muito bonito, mas que as pessoas provavelmente não lerão. Vejo-o mais como um daqueles livros de arte que se compram para ter em cima de uma mesa, na sala de estar lá de casa.» Embora algo céptico em relação ao êxito comercial do livro — «quando a Assírio & Alvim fez coisas deste tipo, com o Almada Negreiros, por exemplo, vendeu sempre pouco» —, Pizarro diz que talvez fizesse sentido alargar este conceito a todo o material que Pessoa editou em vida, nomeadamente os Poemas Ingleses.
Outro pessoano, Fernando Cabral Martins, responsável pela edição crítica da Mensagem (Assírio & Alvim, 1997), ainda não teve oportunidade de manusear o novo livro, mas a iniciativa da Guimarães parece-lhe positiva. «Acho óptimo que se façam coisas destas. Estou sempre a favor das edições fac-similadas, como forma de disponibilizar ao maior número de pessoas um património que é de todos.»
Se o eventual «fetichismo» em torno de um livro-objecto plasticamente atractivo não o incomoda, Cabral Martins já tem mais dúvidas quanto à opção por não incluir quaisquer textos de enquadramento da obra. «Mesmo partindo do princípio de que o leitor a quem a edição se dirige já conhece as particularidades e contingências da génese da Mensagem, creio que faria sempre falta uma nota que explicasse, entre outras coisas, que esta não é a versão final do livro, uma vez que Pessoa continuou a fazer emendas nas provas tipográficas e mesmo no seu exemplar impresso.»
A este propósito, Paulo Teixeira Pinto reafirma a sua ideia de «clonagem»; isto é, o livro enquanto réplica absoluta, tal e qual, sem prefácios ou outros paratextos. «Num dos muitos fragmentos guardados na arca, Pessoa diz qualquer coisa como isto: “Não há factos, só há intepretações.” Nós tentámos fazer exactamente o contrário. Aqui não há interpretações. Só factos.»
A edição «clonada» — uma tiragem única e exclusiva de 2500 exemplares (com um preço de 44 euros) — será posta à venda apenas nas lojas da FNAC e nas duas livrarias da Guimarães (na Rua da Misericórdia e na Biblioteca Nacional). Em 2010, haverá em princípio nova «clonagem», com o mesmo grau de exigência gráfica, do manuscrito de Indícios de Oiro, de Mário de Sá-Carneiro. Outro projecto que arrancará em breve, garante Paulo Teixeira Pinto, é a colecção Olissipo, nome da editora que Pessoa quis criar e nunca criou. «Vamos editar os livros que ele gostava de ter publicado.» No total, dez volumes. Os dois primeiros, já no prelo, são a versão «não clonada» de Indícios de Oiro e O Príncipe, de Nicolau Maquiavel.
[Texto publicado no suplemento Actual, do jornal Expresso]
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