A minha escolha

Da lista de «50 livros que toda a gente deve ler», coube-me escrever sobre nove. Ei-los:

DOM QUIXOTE DE LA MANCHA, Miguel de Cervantes (Dom Quixote)

Numa terra de La Mancha, de que o narrador prefere não se lembrar, vive Alonso Quijano, um homem que por excesso de leituras passou a linha que separa a sanidade da loucura. Ao sair da sua biblioteca, ele só consegue apreender o mundo com os olhos da literatura: a bacia de barbeiro é um elmo; o decrépito jumento parece-lhe um cavalo a sério (Rocinante); em prostitutas vê castas donzelas; numa estalagem manhosa, um palácio. Transforma-se assim o «engenhoso fidalgo» num «cavaleiro da triste figura», partindo estrada fora na companhia de um escudeiro que não o compreende (Sancho Pança) mas lhe alimenta a ilusão. Lado a lado, arremetem contra moinhos que para Quixote são gigantes e para Pança nunca deixam de ser moinhos. Raras vezes foi tão nítido, como nesta dupla picaresca, o contraste entre a imaginação à solta e a materialidade concreta das coisas, entre a utopia e o pragmatismo.
Publicada em 1605, a primeira parte do Quixote, com os seus elementos paródicos, fazia a transição entre modelos narrativos antigos (novelas pastoris, romances de cavalaria) e a literatura moderna. Mas a genialidade intemporal de Cervantes manifesta-se dez anos mais tarde, em 1615, com a edição da segunda parte da obra. Tendo o primeiro livro obtido um êxito enorme em toda a Espanha, as personagens que se cruzam com a dupla Quixote/Pança leram-no; ou seja, já conhecem os seus feitos, os seus falhanços, e aproveitam esse conhecimento para lhes criarem novos embaraços. Dito por outras palavras, Cervantes inventou, há quatro séculos, a meta-ficção. Querem algo mais moderno do que isto? Aliás, ainda na primeira parte, quando o barbeiro revista a biblioteca de Quijano, para lhe queimar os livros, encontra o primeiro romance de Cervantes (A Galateia) e poupa-o. A multiplicação dos narradores, bem como o seu carácter ambíguo, é outra marca de modernidade. El Ingenioso Don Quijote de La Mancha foi provavelmente o primeiro de todos os romances dignos desse nome. Podia ser o último.

MOBY DICK, Herman Melville (Relógio d’Água)

«Call me Ishmael» («Chamem-me Ishmael»). Uma frase, três palavras, e já estamos presos no sortilégio de Melville. Antigo mestre-escola, Ishmael é um jovem que decide trocar uma vida segura em terra pela experiência da aventura no mar alto. Após algumas experiências na marinha mercante, embarca num baleeiro de Nantucket: o Pequod. Em Moby Dick, é ele que narra a viagem do navio e a loucura do seu capitão, Ahab, um homem obcecado pela ideia de vingança. A grande baleia branca, monstro do oceano que escapa a todos os perseguidores, levou-lhe há muito tempo uma perna e a paz de espírito. Enquanto não a reencontrar, enquanto não lhe cravar o arpão fatal que tinja as águas de vermelho, Ahab não descansa. Mesmo que isso implique enfrentar uma tripulação que só quer fazer o seu trabalho – a faina de sempre – e voltar para casa. Melville publicou este livro portentoso a meio do século XIX (1851) e a recepção foi fria ou negativa. Para alguns críticos da época, Moby Dick era um livro desequilibrado, lento, com problemas estruturais e de escrita. O que umas décadas mais tarde seria visto como antecipação do que aí vinha (o hibridismo entre vários géneros, o olhar caleidoscópico sobre a realidade, o fôlego de uma empresa ficcional que rebenta com os espartilhos romanescos), na altura foi entendido como defeituosa execução de um escritor ambicioso. Melville sabia que tinha escrito o seu magnum opus, mas morreu sem o ver no cânone da literatura norte-americana e universal, onde está hoje de pleno direito. A sua baleia branca é a metáfora perfeita porque pode ser tudo o que quisermos que ela seja: a morte, Deus, o Mal. A bordo do Pequod vai a humanidade inteira. E no fim, consumada a tragédia, só sobrevive um. Ishmael, o que ficou para contar.

FICÇÕES, Jorge Luis Borges (Teorema)

Argentino de cultura anglófona, Borges viveu a infância na biblioteca do pai e atravessou a vida como se nunca de lá tivesse saído. O seu universo é livresco no melhor sentido da palavra, erudito, especulativo, fantástico, reinventando permanentemente os grandes temas (o tempo, o infinito, a ordem secreta do mundo). Em vez de «compor vastos livros», preferiu «simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário». Poeta maior, ensaísta agudíssimo e enciclopédico, escreveu dezenas de contos perfeitos, atravessados por tigres, espelhos, labirintos, simulacros e parábolas. Alguns dos mais geniais estão em Ficções: Tlön, Uqbar, Orbis Tertius; Pierre Menard, autor do Quixote; O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam; A Biblioteca de Babel.

A VIDA MODO DE USAR, Georges Perec (Presença)

Figura maior do movimento OuLiPo, Perec explorou como ninguém os «constrangimentos» formais autoimpostos da chamada Literatura Potencial. La Disparition, por exemplo, é um romance lipogramático de 300 páginas sem uma única ocorrência da letra ‘e’ (a vogal mais frequente na língua francesa). Em A Vida Modo de Usar, de 1978, imaginou uma série de «romances» imbricados num único prédio, o n.º 11 da imaginária rue Simon-Crubellier, em Paris. Não podendo abarcar a realidade toda do mundo, Perec oferece-nos a dissecação exaustiva de um edifício e da vida dos seus habitantes – quer no espaço, quer no tempo (um arco de cem anos). Imenso puzzle a que falta sempre a peça decisiva, este é um tour de force que testa, com imenso brio literário e génio linguístico, os limites da arte narrativa.

RAYUELA – O JOGO DO MUNDO, Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

Logo de início, numa «tábua de orientação», Cortázar explica que este romance é «muitos livros», porque a ordem dos seus 155 capítulos (99 dos quais considerados «prescindíveis») fica ao critério de quem lê: pode seguir-se a sequência da paginação, saltar para a frente e para trás, avançar em ziguezague, ou obedecer às sugestões do autor. Nesta narrativa não-linear, com dois hemisférios (Paris e Buenos Aires) que se complementam, há milhares de caminhos possíveis e todos são legítimos. Cortázar experimenta das mais variadas formas: funde dois textos num só, narra uma cena erótica com palavras inventadas (o «gíglico», dialecto dos amantes), parodia, rebenta com as regras, reinventa. Rayuela é um dos mais belos exercício de desmesura: lírico, caótico, infinitamente livre.

AUSTERLITZ, W. G. Sebald (Teorema)

Erudito alemão com carreira académica em Inglaterra, Sebald (n. 1944) foi um escritor tardio que depressa se impôs nos círculos mais exigentes. Quando morreu, em 2001, num acidente de automóvel, acabara de publicar a sua obra-prima, Austerlitz, romance que é uma espécie de apoteose da sua peculiar técnica narrativa. Algures entre a ficção e o ensaio, o relato de vidas alheias e a reflexão autobiográfica, escrevia num estilo digressivo, com frases muito longas de arquitectura perfeita, aqui e ali intercaladas por fotografias a preto-e-branco, cheias de grão, difusas como fantasmas. Austerlitz, o protagonista deste livro crepuscular, é uma figura tipicamente sebaldiana: um desterrado que procura o registo oculto das suas origens, inseparável da memória da Europa e dos seus traumas históricos.

AUTO-DE-FÉ, Elias Canetti (Cavalo de Ferro)

O professor Peter Kien, sinólogo, existe em função da sua biblioteca. «Homem-livro», ele é um erudito misantropo que olha o mundo através do prisma dos seus milhares de volumes, mantendo-o cuidadosamente à distância. Até ao dia em que decide, num impulso, casar-se com a governanta, convencido de que ela o ajudará a manter o equilíbrio entre o seu recolhimento e as ameaças da realidade exterior. As consequências funestas cedo se materializam, quando o casal se incompatibiliza e Kien acaba expulso de casa. Forçado a confrontar-se com a sociedade que tão diligentemente evitara, o professor desce aos infernos e entra numa espiral destrutiva que culmina no apocalipse livresco que o título sugere. Único romance de Canetti, este é um dos mais extraordinários estudos sobre as glórias e malefícios da bibliofilia.

OS DETECTIVES SELVAGENS, Roberto Bolaño (Teorema)

Sabendo que o seu fígado tinha os dias contados, Bolaño (1953-2003) entregou-se na última década de vida a um autêntico frenesim de criação literária, de forma a garantir o futuro sustento dos filhos. Transformado em fenómeno editorial, sobretudo após a edição póstuma do gigantesco e magnífico romance 2666 (mais de mil páginas), Bolaño já atingira um ponto altíssimo nas letras hispânicas em Os Detectives Selvagens (1998), que segue de forma elíptica, a partir dos relatos de pessoas que com eles se cruzaram, a demanda de Arturo Belano e Ulisses Lima – fundadores do realismo visceral, “duas sombras cheias de energia e velocidade” – em busca de Cesárea Tinajero, poeta dos anos 20 que desapareceu misteriosamente no deserto de Sonora, esse locus horribilis que é o centro do mal em 2666.

SUBMUNDO, Don DeLillo (Sextante)

Na origem deste monumental romance, forte candidato ao estatuto de «great american novel», estão dois acontecimentos quase simultâneos, ocorridos em Outubro de 1951: por um lado, o improvável home run de Bobby Thomson que deu aos New York Giants uma vitória mítica no basebol; por outro, um teste nuclear soviético que foi o prenúncio das décadas paranóicas da Guerra Fria. Destes dois factos emanam os inumeráveis fios que Don DeLillo cruza na sua narrativa, oscilando entre as grandes escalas da História e o quotidiano banal de uma imensa galeria de personagens. Épico na descrição das grandes cenas colectivas, mestre na arte do diálogo, DeLillo conseguiu fazer, com esta ficção panorâmica, uma síntese da América na segunda metade do séc. XX.

[Textos publicados no suplemento Actual do jornal Expresso]



Comentários

2 Responses to “A minha escolha”

  1. Mário Rufino on Agosto 28th, 2012 9:14

    hum…excelentes escolhas.
    Não li o do Bolaño nem do Perec. Vá se lá saber porquê, mas o clássico do Cortázar não me entusiasmou.
    Austerlitz é soberbo. Submundo idem. Depois, D. Quixote e Moby Dick são de ler antes de tudo o que há de melhor.
    Há ainda o Borges, o Canetti…

  2. Ricardo on Agosto 30th, 2012 10:29

    Em relação à primeira frase do D. Quixote, que parafraseou, o José Bento, na tradução que fez para a Relógio d’Água, verteu-a como “Numa aldeia da Mancha de cujo nome não me lembro”. Transcrevo aqui a respectiva nota de tradução:

    “1. Martín de Riquer e Luis Andrés Murillo esclarecem que ‘querer’ é aqui um verbo auxiliar, pelo que a tradução de ‘de cuyo nombre no quiero acordar-me’ é: de cujo o nome não me lembro.”

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges