A noite da ficção
«(…) Ao contrário de tantos autores, decerto muito mais previdentes do que eu, que optam por conceber de antemão as diversas cenas que hão¬ de estruturar a obra e que as preparam minuciosamente, tendo em conta todos os detalhes que nela deverão figurar, redigindo a primeira versão e a segunda e ainda a terceira, antes de se abalançarem à redacção provisoriamente final, eu procedo desse modo muito mais angustiante que consiste em navegar na noite da ficção sem um mapa definido. O meu ponto de partida, pensei eu, enquanto procurava reflectir sobre o meu processo de construção romanesca, na sequência de ter lido que o tema desta mesa era «Duvido, portanto escrevo», o meu ponto de partida, dizia, é a situação em que as personagens se encontram, uma situação de conflito ou de tensão, o que também me permite imaginar uma ou outra possibilidade de a resolver. Por outras palavras, eu sei onde tudo principia e onde tudo pode acabar, mas ignoro como lá chegar e, pior ainda, nem sei se lá chegarei. Algumas pessoas sensatas e bem informadas sobre estes assuntos da literatura diriam que não se deve começar um livro assim, outras igualmente sensatas e informadas afirmariam que um romance é uma história e que, sem a termos encontrado previamente, não vale a pena começar a ocupar páginas; todas elas terão certamente razão, mas eu nunca me consegui separar da ideia de que um romance não é uma história, ainda que ela possa lá estar, porque um romance não se distingue por aquilo que nele se conta, mas pela forma como nele algo é, ou não, contado, como também sempre me pareceu que construir um texto seguindo as etapas previamente definidas representa quase uma burocratização da arte. Colocando o problema em termos que já foram célebres, diria que, à escrita da aventura, prefiro a aventura da escrita.
Fácil é de perceber como tal caminho é atribulado, uma vez que o escritor, ou o romancista, pois apenas me refiro à construção de ficções narrativas relativamente longas, uma vez que o escritor, dizia, deve fazer escolhas e avançar quase às cegas. A dúvida sobre as opções a que ele deve proceder a cada instante, suscitadas por essa proliferação de caminhos que se abrem diante de si, sem que lhe seja possível tomar uma opção fundamentada, é similar à que Søren Kierkegaard detectou no dilema de Abraão. Para o filósofo dinamarquês, ao receber uma ordem de Deus para sacrificar o seu filho, Abraão viu¬ se colocado numa situação de absoluto isolamento: tendo de escolher entre o seu amor paternal e a devoção ao divino, não encontrava qualquer referência que o pudesse orientar, qualquer modelo que lhe pudesse servir. Posicionado em situação de liberdade total, porque sabe que a escolha lhe cabe apenas a si, o Abraão de Kierkegaard assemelha¬ se ao romancista que avança em estado de permanente confronto interior, que vai compondo um caminho na ignorância da estrada que lhe falta percorrer e dos obstáculos que lhe poderão surgir. A dúvida irá assaltᬠlo em permanência, e as respostas que ele for encontrando poderão ser muito difíceis de explicar, tal como o Abraão de Kierkegaard teria sempre muita dificuldade em explicar os motivos da sua decisão, fosse ela qual fosse. Haveria, é claro, um modo de superar essa dúvida, que consistiria em abarcar todas as possibilidades, em negar a escolha, um pouco à maneira do que fez Alan Ayckbourn num célebre conjunto de peças de teatro, que serviria de base a um não menos célebre par de filmes de Alain Resnais, Smoking e No smoking, que inclui mais de uma dezena de hipóteses de continuação de uma sequência inicial. De resto, já Gonzalo Torrente Ballester, em resposta a um jovem escritor que se queixava da falta de inspiração para escrever um romance, lhe sugerira que se ocupasse dos «possíveis narrativos», ou seja, de todas aquelas possibilidades com que o escritor se confronta quando tem de decidir como deverá prosseguir a narrativa, para, em vez de optar por uma, as apresentar todas, o que haveria de lhe dar trabalho para uma vida inteira. Ainda assim, como o escritor não se libertaria da necessidade de escolher, dado que teria de decidir qual era a possibilidade que apresentava em primeiro lugar e a que apresentava em segundo e assim sucessivamente, o melhor será assumir, na esteira de Derrida, que o momento de decisão equivale a uma suspensão do juízo, a um salto no escuro, porque nunca é possível saber com exactidão qual será a melhor escolha. A escrita, além do mais, é contingente, e a composição de uma página de um romance num determinado dia de manhã é diferente da composição dessa mesma página – que já não será a mesma – num determinado dia de tarde.
Avançar na escuridão, pensei eu, quando ainda achava que o tema desta mesa era «Duvido, portanto escrevo», torna¬ se, então, inevitável para aquele romancista que prefere confrontar¬ se com a angústia, não da página em branco, mas do prolongamento das páginas já preenchidas. Nesta óptica, aliás, as opções vão¬ se reduzindo à medida que o número de palavras aumenta, pois cada vez é maior a quantidade de texto que pesa sobre as frases que vão sendo construídas e cada vez são mais apertados os limites por onde elas se podem desenvolver. Talvez seja mesmo a consciência desse peso o que, em determinadas alturas, leva o romancista a concluir a obra, talvez seja essa espécie de asfixia da dúvida, porque se reduzem as escolhas possíveis, que impede a escrita de prosseguir, cansada perante a certeza definitiva que se perfila no seu horizonte. O que se escreve tem de responder ao que já foi escrito, mesmo que não se seja tão radical como Javier Marías, que afirma não alterar as páginas que já preencheu e esforçar¬ se por adaptar sempre o que vai compondo ao que ficou para trás, segundo o modelo da vida, em que, ao fim e ao cabo, também não podemos apagar o passado. (…)»
João Paulo Sousa
[Excerto da comunicação lida pelo autor de O Mundo Sólido, na mesa 8 das Correntes d'Escritas 2010]
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2 Responses to “A noite da ficção”
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“Gato preto, gato branco, gato bom é o que caça ratos”, dizia Teng Siao Ping, ao que consta. Quanto às dificuldades, criar um mundo nunca é fácil, especialmente para um pobre mortal. Esse mundo estará terminado quando não precisar mais do criador.
“…eu procedo desse modo muito mais angustiante que consiste em navegar na noite da ficção sem um mapa definido.”
Muito bom.