À procura de Borges em Coimbra

Apesar de porfiadas buscas, Osvaldo Manuel Silvestre não encontrou um único exemplar de Jorge Luis Borges à venda nas principais livrarias de Coimbra (e algumas delas estão entre as maiores do país). Ou seja, na terceira cidade mais importante deste rectângulo de trombas viradas para o Atlântico, na nossa urbe universitária por antonomásia, quem quiser ler um dos génios maiores do século XX tem que mandar vir as Obras Completas de Lisboa ou pedir que as enviem, em inglês, pela Amazon. Deixem-me usar maiúsculas: isto é E-S-C-A-N-D-A-L-O-S-O. Um escândalo literário, comercial, cultural e, não poupemos nas palavras, civilizacional.



Comentários

17 Responses to “À procura de Borges em Coimbra”

  1. O Salgador da Pátria on Agosto 5th, 2008 0:04

    Eu uma vez fui a uma grande livraria comprar “Os Lusíadas” que um amigo americano me tinha pedido, para ficar com a versão em Português, e informaram-me (calmamente) que “isso só se vende em Setembro quando começam as aulas e agora não temos”.

  2. anónimo on Agosto 5th, 2008 1:32

    Os famosos Livreiros Independentes (LI) nada terão a dizer a isto?!! Este é apenas um exemplo (entre muitos e muitos outros) do estado cultural das nossas queridas livrarias (aposto que todas esfumavam “Português Suave” em pilhas). E depois os senhores livreiros ainda querem que um leitor médio, mais ou menos literato, não se vire para as grandes cadeias como a FNAC ou a Byblos (Lisboa e Porto). Como diria o cego enquanto apalpava: organizem-se!!

  3. antónio s. on Agosto 5th, 2008 10:33

    Esqueçam as livrarias, e comecem a comprar pela internet aos editores. É fácil, não dói e ficam com a certeza de que, do dinheiro que dão pelo livro, a MAIOR PARTE vai para quem o fez: autor e editor.

  4. nuno magalhães on Agosto 5th, 2008 15:24

    Não seja assim. A Amazon também vende os livros do argentino em espanhol, que ao menos é o original.

  5. Maria on Agosto 5th, 2008 16:32

    um escandalo é alguém mentir desta forma… hoje fui às bertrand’s de Coimbra e encontrei livros de Jorge Luis Borges à venda em todas elas, não existem muitos, mas estão lá…
    esta história está mal contada… na verdade o senhor Osvaldo não sabe procurar livros nas Livrarias… provavélmente procura nas estantes erradas…

    M.

  6. Bruno Peixe Dias on Agosto 5th, 2008 20:54

    As livrarias são empresas e, como todas as empresas, têm como objectivo fazer dinheiro. Não percebo porque é que os livros devem ser tratados como mercadorias diferentes. O escândalo é que exista capitalismo, que a apropriação esteja condicionada ao mercado, e que os produtos sejam mercadorias.
    O que é escandoloso é ver tanta gente de esquerda a lamentar a morte de um fascista como o Soljenitsin. Já foi tarde.

    Um abraço,
    Bruno Peixe

  7. José Mário Silva on Agosto 6th, 2008 10:03

    Pode lamentar-se a morte de um escritor importante sem o pôr num altar, Bruno. Eu não gosto particularmente da figura do Soljenitsin, do seu nacionalismo retrógrado e do seu estilo conservador, mas considero que a denúncia que ele fez do Gulag contribuiu para o fim do pesadelo soviético (e isso será sempre de aplaudir).
    Não fiz elogios ao escritor, que aliás conheço mal, porque seria hipócrita, mas nunca poderia ignorar a sua importância na literatura russa do século XX.
    Já agora, para que fiques menos furioso com as supostas derivas da “gente de esquerda”, digo-te que achei o destaque dado a Soljenitsin na primeira página do Público um manifesto exagero.

  8. Alexandra Campos on Agosto 6th, 2008 10:19

    Nunca vendi um “Fausto”, nunca me encomendaram a “Montanha Mágica”, um das grandes livrarias em que trabalhei só vendeu em dois anos, um exemplar das “Memórias de Adriano”, a “Cartuxa de Parma” e todos os seus amigos vêm e vão dentro de caixotes da livraria para o armazém da editora, num pêndulo impassível. Nem as grandes aventuras escapam, os livros do Jack London, Mark Twain, Éxupery.
    Também ninguém quer saber do Darwin e do Newton, do Descartes e do Kant. Perguntem aos livreiros quantos exemplares dos “Passos em Volta”, ou das “Flores do Mal” acham que são lidos por ano em Portugal. Peguem numa lista de obras incontornáveis e sigam para a livraria mais próxima. Ao chegarem entreguem a lista no balcão e esperem sentados, enquanto folheiam um gonçalo amaral, ou uma sveva, ou um sparks, observem as filas dos clientes – e o que eles levam – e grunham de indignação. Caro Jorge Silva, é E-S-C-A-N-D-A-L-O-S-O como muito bem diz, mas é também infelizmente e profundamente E-N-D-É-M-I-C-O e espero enganar-me, irreversível. As livrarias não se renderam ao capitalismo, só se transformaram naquilo que a sociedade em geral é e exige. Basta observar.

  9. Catarina on Agosto 6th, 2008 11:22

    A propósito do comentário da sra. Maria, gostava de dizer isto: um dia após a publicação do post em causa – sou leitora do blogue e, como vivo em Coimbra, frequento as sessões no Gil Vicente – encontrei-me com uma amiga no Dolce Vita e verifiquei, na Bertrand, que a situação era exactamente a descrita no post. Mais tarde fui ao Fórum, aos saldos, e na Fnac, onde havia aliás um pequeno saldo de livros, constatei que na estante onde se encontra a placa «Jorge Luis Borges» não há de facto livro nenhum. Ao andar pelo Fórum às compras passei em frente à Bertrand, que creio ser a segunda maior da rede em Coimbra, e, uma vez que OMS a não referia, fui lá ver o que acontecia a Borges: tudo na mesma, nenhum livro do autor. Não venha agora a sra. Maria dizer que nem eu nem OMS sabemos procurar livros em livrarias; e sobretudo não argumente com sites de livrarias pois já estou cansada de, por telefone ou ao vivo, ouvir justificações do tipo «Não temos… Sabe, os dados do site nem sempre correspondem às existências…»

  10. Ricardo on Agosto 6th, 2008 15:17

    Mais que a do livreiro ou do cliente escolho a posição do leitor.
    É verdade que antes da Trama , em 8 anos de livreiro não vendi mais que uma dúzia de Borges e a leitores que consegui ganhar uma certa confiança.
    Mas como leitor e livreiro é de uma importância vital vender nem que seja um único Broges por ano. Fico mais leve, a esperança invade-me o coração e tal e não sei o quê…
    Os tempos estão difíceis porque muitas vezes há um pequeno pormenor que vem sido esquecido por muitas livrarias: o leitor.
    A própria noção de livraria está errada.
    É muito mais que um espaço de compra e venda,é um espaço de partilha e descoberta.
    Quando sou abordado por um cliente o que tento passar é que não sou um vendedor, sou seu cúmplice.
    ( Excluindo este último sobre a Maddie em que optei por uma postura mais distante, como se obrigado a participar nesse crime: a venda)

  11. Pop Paulo on Agosto 7th, 2008 11:35

    “Esqueçam as livrarias, e comecem a comprar pela internet aos editores. É fácil, não dói e ficam com a certeza de que, do dinheiro que dão pelo livro, a MAIOR PARTE vai para quem o fez: autor e editor. ”

    Isto é verdade?, no que toca aos autores?

    Se sim, fico contente, custa-me pagar um livro e saber que o autor vai receber 1,30€ / 1,60€, ou pouco mais, ou até bastante menos.
    Não acho que esteja a pagar o valor correcto pelo trabalho intelectual, e a pagar demasiado pelos camiões de levam os livros de um lugar para outro, e a parte de leão vai para os senhores que me trocam o dinheiro por papel encadernado.

  12. Alexandra Campos on Agosto 7th, 2008 14:48

    A parte de leão não vai para quem lhe troca o dinheiro pelo papel. Nem para o autor, e a editora só lucra se vender. Então aonde está o comilão? Na distribuição? Com os seus porcentozinho de margem? Acho que uma pequena parte do mistério reside na expressão “preço de editor”, a outra muito maior, na dimensão da carochinha que tem o mercado nacional, que se formos honestos, podemos concordar, não lhe traz competitividade (a não ser que sejamos uma dessas editoras de grande dimensão). A primeira assunção relaciona-se com o facto de ser difícil que se tenha um produto para vender, e não se faça contas para que não seja necessário vender uma tiragem completa para gerar lucro. Os livros ficam mais caros, mas o risco é menor, especialmente em produções dispendiosas. A segunda poder-se-á resolver num futuro em que os editores independentes se venham a unir para criarem uma plataforma como fez a malta em Espanha. A parte de leão dos cerca de 35-50 por cento de margem do retalho é muito bom se fossem paletes de leite, ou camisolas da zara. Como dá trabalho vender livros (e desculpem os meus colegas editores, a maior parte edita os livros e não se preocupa com mais nada e dos livreiros é melhor nem falar), ao final do ano é deprimente ver o que fica. A única forma do sistema mudar é o nosso mercado crescer lá para fora fora, ou Portugal inteiro passar a ler de repente( e não me lixem este é que é o problema), para ambas as opções é necessário, muito trabalho conjunto de todos os intervenientes. Caso contrário, o Borges vai mesmo desaparecer das livrarias.

  13. Ricardo on Agosto 7th, 2008 15:36

    Só para contrariar: acabei de vender um Borges ( “O Fazedor”- Difel).
    “…e a parte de leão vai para os senhores que me trocam o dinheiro por papel encadernado. ???!!!?
    Que tristeza…uma expressão que fez furor nos anos 70 ser desenterrada para este assunto.
    Só queria saber a quantas lojas é que este senhor vai e pedincha descontos, se calhar só mesmo nas livrarias porque não valoriza o produto, logo não é leitor…
    Ou se calhar vai comprar o seu pólo da moda à China ou Indonésia para não dar dinheiro a ganhar aos “porcos capitalistas”.
    Que coisa ridicula!

  14. Ricardo on Agosto 7th, 2008 15:57

    Ah e só mais uma coisa:

    “NÃO ACREDITEM EM TUDO O QUE SE LÊ EM BLOGUES OU ATRAVÉS DA INTERNET ( e contra mim falo),perguntem a quem realmente tem uma opinião válida, quem verdadeiramente trabalha o livro e procura honrá-lo.
    Interessa-me informação e opiniões válidas, não lutas de egos.

  15. Pop Paulo on Agosto 7th, 2008 18:57

    Ricardo, fico preocupado, que disparate….!
    Que dramático enredo é esse que inventou sobre pedinchar descontos, não valorizar o produto?, enfim, só acertou no final.

    Gostaria de compreender este raciocínio, mas não tenho talento para tanto:

    “Só queria saber a quantas lojas é que este senhor vai e pedincha descontos, se calhar só mesmo nas livrarias porque não valoriza o produto, logo não é leitor…”

    É muito retorto para mim.

    Pois, se é isso que lhe vai na alma e o que processam os dedos nas teclas, ficamos esclarecidos.

  16. Ricardo on Agosto 8th, 2008 10:07

    Caro Paulo,

    As generalizações magoam, sempre a mesma história ” o justo paga pelo pecador”.
    Não tenho multinacionais por trás, faço parte das poucas livrarias que se podem orgulhar da sua independência.
    E afirmo sem medo de errar que neste momento o livro é dos produtos menos valorizados do mercado. Compreendo que é um mal que também muitas livrarias( ou grandes cadeias de supermercados do livro) contribuiram para que a sua opinião radical se formasse.
    Mas peço também que se informe realmente em relação a certas editoras, ficaria decepcionado em saber o esforço que muitas vezes os intervenientes na criação do livro sofrem para serem pagos, independentemente das vendas nas livrarias.
    Convido-o a passar pela Trama onde pelo menos existe o esforço de fazer melhor, e identifique-se, porque quero mesmo acabar com mal entendidos.
    Normalmente não sou sequer agressivo, mas já são bastantes anos no mundo do livro e estou mesmo cansado de discursos derrotistas de editoras e livreiros que permanecem numa lamentação constante mas mantêm os braços cruzados.
    Até já faço a piada de que para se ser livreiro em Portugal, saber ler já não é considerado obrigatório mas uma mais valia.
    Tenho a certeza que se ler os meus comentários anteriores vai encontrar pontos em comum comigo.
    É para isso que trabalho todos os dias.
    Acredite que estão a chegar tempos de mudança.
    Se levei os seus comentários a peito, mea culpa, mas não consigo distanciar-me da minha livraria a ponto de a considerar apenas um local onde se “!troca dinheiro por papel encadernado.”

  17. Pop Paulo on Agosto 8th, 2008 11:17

    De acordo, Ricardo, trabalhamos com linguagens diferentes, para mim trocar dinheiro por papel encadernado é uma tentativa (neste caso, frustrada) de fugir a expressões mais mercantilistas. Percebo que tratar um livro por “papel encadernado” seja pouco delicado para si. Eu trato mal os livros, não ligo à sensualidade do papel que vejo exortada. Só não lhes dou pontapés porque, enfim, não sou de pontapear. O meu “Novelas do Minho” do CCB está uma dejecção, quase todas as páginas estão dobradas, o livro está a desfazer-se de tão velho e de tão destratado, não tenho qualquer dó dele, por tanto, nunca terei remorsos do que faço.

    São sensibilidades diferentes, em conflito civilizado.

    O livro só tem valor para mim se o que dele retiro me emociona e supreende, e isso pode acontecer com o rótulo de um iogurte, a etiqueta de uma camisa (e tenho pouca consciência ecológica quanto ao carbon offset ou política quanto à proveniência do artigo), um artigo de jornal, um texto num blog. Nunca tive qualquer reverência pelo livro enquanto objecto, nem nunca terei, bem sabe o Ricardo que toda a estupidez do mundo já neles foi e continua a ser impressa, não posso idolatrar um objecto que serve de suporte ao bom e ao mau, numa razão hegemónica desta última condição.

    Agradeço a sua perspectiva, do lado de “cá” não imaginamos as suas agruras!

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges