A respiração da terra

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O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua
Autor: Manuel Alegre
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 111
ISBN: 978-972-20-3985-7
Ano de publicação: 2010

Depois de ter dado uma forma narrativa linear às suas memórias de infância (no belíssimo romance Alma, de 1995), Manuel Alegre regressa a esse território mágico num desconcertante livro cheio de curvas e atalhos, que avança e recua aos ziguezagues, tanto no tempo como no espaço. Os 33 fragmentos são atravessados por um narrador em permanente metamorfose, uma espécie de palimpsesto de sucessivos «miúdos» (o que «prega pregos muito direitos numa tábua», o que engole os comprimidos do avô, o que anda num carro de pedais, o que conta sílabas pelos dedos, etc.), narrador de estatuto incerto, com «tendência ora a efabular ora a querer ser tão verdadeiro que põe em dúvida o que de facto foi e até de si mesmo suspeita».
O estratagema serve a Alegre para contar, em episódios curtos, de forte carga poética, as «tantas vidas na tão curta vida», com a memória a impor as próprias leis, que tanto o transportam à praia de Espinho, onde o pai lhe ensinou a não ter medo do mar, como a uma clareira no meio do mato, entre Nambuangongo e Quipedro, sob as balas que assobiam.
Mas se há nestes textos muita biografia, há ainda mais reflexão sobre as origens da escrita, sobre as vibrações do mundo captadas pela linguagem, resumidas na metafórica «respiração da terra», pressentida à beira de um vulcão da Nicarágua, uma espécie de ritmo vital que dá sentido à poesia, à música, à sexualidade e à própria existência.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges