A segunda Suite
SUITE
Levantou-se cedo e está sentado
na sala de estar. Ainda está escuro.
Recorda-se quando aqui o Lluís Claret
tocou para os três, ele e elas as duas,
que o escutavam sentados no sofá
onde agora espera que comece a alba.
Como se num porto soasse uma sirene,
o cello despedia-se da menina
com a segunda Suite de Bach.
A tua mãe e eu tornamo-nos velhos,
mas isso nunca precisarás de ver,
diz o homem enquanto olha para o pátio.
Já canta algum pássaro quando pôs
aquela peça, tocada pelo Lluís,
e voltou a sentir sobre o seu peito
o suave peso da cabeça de Joana.
Agora, quando começa a clarear,
generosa, regressou
na segunda Suite para Violoncelo,
que é por onde entra, desde que morreu, em casa.
[in Casa da Misericórdia, de Joan Margarit, trad. de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, OVNI, 2009]
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