A sua cara é-me estranha

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Barba Ensopada de Sangue
Autor: Daniel Galera
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 391
ISBN: 978-989-722-139-2
Ano de publicação: 2014

O protagonista de Barba Ensopada de Sangue sofre de uma doença neurológica relativamente rara (prosopagnosia) que o torna incapaz de reconhecer rostos – todos os rostos, não apenas os que foram vistos só uma vez e é natural esquecer. Para ultrapassar esta limitação, ele recorre a outras formas de perceber quem são as pessoas com quem se cruza. Fica atento às inflexões das vozes, à textura dos cabelos, às peças de roupa, ao «jeito de andar», aos adereços. «Eu tenho que estar sempre ligado no que pode identificar uma pessoa, fora o rosto dela. Eu escaneio os detalhes. (…) Quanto mais eu conheço a pessoa, mais fácil é reconhecer. Mas sempre é meio complicado.» Ao mudar-se para Garopaba, fugindo de Porto Alegre, das quezílias familiares e da imagem de um pai que se suicidou, deixando-lhe nos braços a sua cadela, ele não conhece ninguém, começa relacionamentos sociais do zero, pelo que essa dificuldade crónica se torna maior do que nunca.
A escolha de Garopaba, cidade balnear muito frequentada no Verão, mas deprimente no Inverno, não foi um mero acaso. Antes de se matar, o pai contou-lhe que o seu avô teria sido assassinado ali, no final da década de 60, em circunstâncias nunca esclarecidas. Homem de «pavio curto», brigão, sempre a puxar da faca, era visto como forasteiro indesejável pelos habitantes locais. Certa noite, num baile, alguém apagou as luzes, ouviram-se dezenas de lâminas e a escuridão apadrinhou o ajuste de contas colectivo. Só que o corpo nunca apareceu, o suposto crime não foi devidamente investigado e o nome de Gaudério tornou-se um tabu, uma lenda incómoda – mesmo quatro décadas depois, quando o neto daquele gaúcho maldito chega à cidade, ainda por cima deixando crescer a barba, ao ponto de ficar a cara chapada do seu antepassado.
Homem simples, o protagonista é um professor de educação física que dá aulas de natação e corrida, depois de ter treinado atletas para campeonatos de triatlo. Em Garopaba, as suas rotinas não mudam muito. Após um período de adaptação, ele mergulha na modorra da vida quotidiana, enquanto tenta desenterrar a verdadeira história do que terá acontecido ao avô, esbarrando quase sempre na desconfiança ou no silêncio ostensivo de quem o poderia ajudar. Há qualquer coisa de instável no círculo das suas relações mais íntimas – as duas mulheres com quem se envolve (uma garçonete de pizzaria e uma secretária de uma agência de passeios turísticos, ambas com nome de flor), além do budista engatatão que se torna o seu melhor amigo – e as ondas de choque do que deixou para trás acabam por apanhá-lo, quando a mãe, primeiro, e a ex-namorada, depois, o visitam. A certa altura, ele alude à «presença constante de uma coisa indefinida que está demorando para acontecer» e essa demora estrutura todo o romance. Dito de outro modo: a passagem do tempo é em si mesma uma personagem do livro, talvez a principal. O leitor não se limita a assinalar os dias, as semanas, os meses. Vive-os por dentro, sente-lhes o peso, a sua glória, os seus vazios.
Para produzir este efeito, a escrita de Daniel Galera assume radicalmente a perspectiva do protagonista. Ou seja, é como se ela também sofresse de prosopagnosia e amplificasse ao máximo a atenção aos detalhes. Tudo merece descrição exaustiva, seja um gesto, uma paisagem, uma noite no circo, uma quermesse com show de dupla sertaneja, um bordel manhoso, um jogo de póquer (em que os participantes usam fralda geriátrica para não terem sequer de ir à casa de banho) ou um passeio de barco para avistar baleias. O romance expande-se neste movimento de contar tudo, prescindindo das elipses e dos atalhos habituais que nos levam directamente ao que interessa, mas nunca se perde nem se desequilibra. A investigação conclui-se, os problemas familiares tornam-se por fim compreensíveis, as pontas unem-se, enquanto o processo de construir uma lenda se repete. Como a miragem vista na praia, a narrativa está sempre à beira de se desfazer «sem alarde». Mas quem a tenha lido dificilmente esquecerá os contornos do seu ‘rosto’.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]



Comentários

One Response to “A sua cara é-me estranha”

  1. Papagaio pousado no ombro | Bibliotecário de Babel on Janeiro 30th, 2014 0:23

    […] nota final de Barba Ensopada de Sangue (Quetzal) – livro que venceu o Prémio São Paulo de Literatura 2013, ficou em terceiro lugar na […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges