A atracção das fronteiras

A Lâmpada de Aladino
Autor: Luis Sepúlveda
Título original: La Lampara de Aladino
Tradução: Helena Pitta
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 172
ISBN: 978-972-0-04183-8
Ano de publicação: 2008

Com os 13 contos reunidos neste volume, Luis Sepúlveda não regressa apenas ao território da ficção pura, após um longo intervalo em que publicou essencialmente livros de intervenção cívica ou denúncia política, como O General e o Juiz (2003), Uma História Suja (2004) e O Poder dos Sonhos (2006), todos editados ainda pela ASA – trocada agora pela Porto Editora, para onde se mudou entretanto o seu amigo Manuel Alberto Valente. Mais do que um regresso à narrativa, A Lâmpada de Aladino marca o reencontro com geografias e personagens de obras anteriores do escritor chileno, numa espécie de evocação – umas vezes eufórica, outras nostálgica – das suas próprias fronteiras, humanas e criativas.
Café Miramar é um exercício sobre os fantasmas da paixão amorosa, na Alexandria de Kavafis. Em Hotel Z, é o poder da selva (e, atrás dele, o da literatura) que toma de assalto um edifício perdido nos confins da Amazónia. Coração de Maria gela-nos com a evidência da morte, surgindo sob a chuva de confettis do Carnaval de Ipanema. Ding dong ding dong son las cosas del amor, um dos relatos menos interessantes do livro, quer contar uma história de intermitências mas fica-se pelo cansativo jogo do toca-e-foge. A ilha é um elíptico tratado sobre a perda, a renúncia e a traição; O anjo vingador, enquanto conto policial de tom germânico, tem tudo no sítio (menos a verdade completa, talvez irrelevante e inútil); A lâmpada de Aladino mostra os segredos de um estranho comércio no fim do mundo; e A chama obstinada da sorte desdobra-se engenhosamente para nos revelar a difícil recuperação de um tesouro, enterrado em tempos, numa cabana da Patagónia, pela quadrilha de Butch Cassidy e Sundance Kid.
Os dois melhores contos são, porém, A reconstrução da catedral e Desventura final do capitão Valdemar do Alentejo. No primeiro, Antonio José Bolivar Proaño, o protagonista de O Velho que Lia Romances de Amor, volta ao molhe de El Idílio, às conversas com o dentista e às travessias da selva, desta vez com uma guerra absurda como pano de fundo. No segundo, narra-se a morte lenta de um pirata português, ferido e à deriva no mar alteroso da Terra do Fogo, perto do Estreito de Magalhães. Uma história magnífica que Sepúlveda ampliará num futuro romance de piratas, em relação ao qual se podem alimentar, desde já, as melhores expectativas.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 76 da revista Ler; entrevista ao autor, sobre este livro, aqui]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges