‘A Turma’ (veja o filme, leia o livro)

A Turma (Entre les Murs), de Laurent Cantet, Palma de Ouro do Festival de Cannes deste ano, chega hoje aos cinemas portugueses. Antecipando-se a esta estreia, a Dom Quixote lançou há poucas semanas o romance de François Bégaudeau em que o filme se inspira (e no qual Bégaudeau assume o papel do professor). A tradução, difícil e ingrata, é de Isabel St. Aubyn. Eis um excerto:

«Pedi a Khoumba que lesse o extracto, ela respondeu que não lhe apetecia.
– Apeteça-te ou não, lê.
– Não vai obrigar-me a ler.
Chamei a atenção dos restantes vinte e quatro.
– Que nome tem o que Khoumba acaba de fazer?
– Insolência.
– Muito bem, Kevin. É verdade que estamos perante um especialista.
Khoumba começou a engolir as sílabas como sempre que se insurge, com um sorriso de través porque as amigas periféricas gracejavam. Na falta de melhor ideia, disse-lhe que ficasse na sala depois da aula.
(…)
– Vamos passar o ano inteiro assim?
– Assim como?
– Pede desculpa.
– Desculpa de quê? Não fiz nada.
– Pede desculpa. Enquanto não pedires desculpa não te deixo sair.
Khoumba hesitava entre salvar as aparências e juntar-se às colegas que a todo o momento espreitavam pela porta entreaberta.
– Não, não peço desculpa não fiz nada.
Para me irritar fingiu recuperar o caderno que eu mantinha suspenso para a irritar a ela.
– Não querias mais nada. Arranca-me o braço, já agora.
Khoumba fechou-se de novo.
(…)
– Repete comigo: professor, peço desculpa por ter sido insolente.
– Não fui insolente.
– Estou à espera: professor, peço desculpa por ter sido insolente.
– Professor, peço desculpa por ter sido insolente.
Disse-o maquinalmente, com uma ostensiva ausência de convicção. Ainda assim, restituí-lhe o caderno, do qual se apoderou de imediato antes de correr para a porta. No momento de desaparecer no corredor, exclamou
– não concordo.
Dei um salto mas demasiado tarde. A pequena silhueta indisciplinada descia a correr um andar abaixo de mim. Desisti, de nada valeria gritar-lhe ameaças. De regresso à minha secretária, dei um pontapé numa cadeira que se voltou. Quatro pernas de ferro para o ar.»



Comentários

2 Responses to “‘A Turma’ (veja o filme, leia o livro)”

  1. C on Outubro 31st, 2008 14:40

    Desde sempre, e em sintonia com os manuais, a adolescência marcou os sistemas familiares e de ensino ou escolares com os seus dizeres, a sua graça e beleza (o que é esse rosto, a giríssima expressão dos 14/15/16 anos que nunca mais se tem igual, essa força de acreditar e inovar?), com a sua não adesão buliçosa ou indiferente, com a sua colagem ao grupo de pares ou iguais marcando a oposição ao mundo adulto, com os seus tempos de paixão e enamoramento – tão absorventes, tão hormonais, tão demorados (quem fica com mente e disponibilidade para os conteúdos científicos perante tais estímulos e desilusões que têm que ser contados, partilhados, chorados?), com os seus costumes e posturas já com vincos marcadamente genéticos, educacionais, sociais que, por vezes, nem uma vida inteira alisa, com o seu atrevido auto-convencimento. Foi sempre assim. Mas hoje (vem sendo um hoje já com uns aninhos), como pode a escola (alguém) dar resposta e unir tudo isto que, embora constituindo a força dos jovens, começou a revelar franjas de alguma marginalidade, desrespeito, agressão e marcado desinteresse? Como podem eles não ver vantagem nos conteúdos e opor-se a tudo o que é ensino com as suas normas próprias? Gostava de saber. Queremos todos saber. Muito interessadamente, sem referir todos os casos que correm bem e sem ter visto o filme.

  2. Bibliotecário de Babel – on Novembro 5th, 2008 11:35

    […] Bégaudeau (n. 1971) foi filmada por Laurent Cantet e arrebatou a Palma de Ouro em Cannes (estando neste momento em exibição nos cinemas nacionais), enquanto a nós nos coube ver, em imagens pixelizadas no YouTube, a triste cena de uma aluna do […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges