A verdade oblíqua

Cem Poemas
Autora: Emily Dickinson
Tradução: Ana Luísa Amaral
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 272
ISBN: 978-989-641-173-2
Ano de publicação: 2010

O caso de Emily Dickinson (1830-1886) é um dos mais singulares de toda a história da literatura. Nascida em Amherst, no Massachusetts, ela viveu grande parte da vida numa reclusão voluntária, raramente abandonando a casa da família e, nos últimos anos, quase não saindo do quarto. Se o confinamento doméstico nunca lhe tolheu a criatividade, funcionando antes como um casulo dentro do qual foi tecendo uma obra absolutamente original (e em evidente ruptura com os códigos dominantes na época), o certo é que Dickinson tinha provavelmente consciência de que aqueles poemas difíceis – com inúmeros travessões, de sintaxe áspera, muito densos e por vezes crípticos – teriam que esperar algumas décadas para serem devidamente apreciados.
Quando morreu, aos 55 anos, publicara cerca de uma dezena de textos em jornais e revistas. Foi a irmã, Lavinia, a quem pedira para destruir correspondência após o seu desaparecimento, que descobriu espantada um espólio com mais de mil poemas, os quais viriam a formar, reunidos aos seiscentos em posse de Susan Gilbert (mulher de Austin Dickinson, irmão de Emily), o extraordinário corpus que projectou esta poeta para o cânone da literatura norte-americana, como brilhantíssima precursora de um modernismo que só explodiria em pleno século XX.
Desta obra imensa, Ana Luísa Amaral acaba de seleccionar e traduzir Cem Poemas, juntando-se a outros notáveis tradutores portugueses: Jorge de Sena (que traduziu 80 poemas), Maria Gabriela Llansol (39), Cecília Rego Pinheiro (26) e Nuno Júdice (65). Se algumas opções são discutíveis, é preciso ter em conta dois aspectos: 1) a extrema dificuldade de verter para outra língua certas suspensões sintácticas e a estranha música destes versos; 2) a dupla autoridade de Ana Luísa Amaral para realizar este trabalho, enquanto poeta ela mesma e enquanto especialista na autora em causa (a sua dissertação de doutoramento, defendida em 1995, intitulava-se Emily Dickinson: Uma Poética de Excesso).
A solidez da perspectiva académica de ALA torna-se evidente no magnífico posfácio, em que a tradutora, para além de contextualizar a importância desta poesia, traça o emaranhado percurso da sua fixação e publicação, ainda hoje problemática devido ao carácter aberto de muitos poemas (de que se conhecem vários manuscritos, com variantes), uma «pluralidade textual» que «continua a revelar fracturas e desvios». De resto, um estado de coisas que a própria autora antecipou num dos seus versos mais conhecidos: «Diz toda a Verdade mas di-la oblíqua –».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 95 da revista Ler]



Comentários

One Response to “A verdade oblíqua”

  1. Listas 2010 | Bibliotecário de Babel on Janeiro 4th, 2011 1:22

    […] Cem Poemas, de Emily Dickinson, Relógio d’Água […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges