A viagem diagonal

detectivesselvagens.jpg

Os Detectives Selvagens
Autor: Roberto Bolaño
Título original: Los Detectives Salvajes
Tradução: Miranda das Neves
Editora: Teorema
N.º de páginas: 511
ISBN: 978-972-695-764-5
Ano de publicação: 2008

Embora seja cedo para fazer balanços, os leitores portugueses que apreciam a melhor ficção latino-americana não se podem queixar do que 2008 lhes tem oferecido. Em Maio, foram publicados quase em simultâneo, pela primeira vez por cá, dois fabulosos romances argentinos: Rayuela, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro), e Bomarzo, de Manuel Mujica Lainez (Sextante). Duas obras imensas — também no volume (mais de 600 páginas) — que tiveram de esperar 45 e 46 anos, respectivamente, até encontrarem editores com coragem para fazer delas uma aposta, sobremaneira arriscada quando se sabe que o mercado editorial está cada vez mais competitivo.
A estas duas boas notícias junta-se agora uma terceira, com a edição, pela Teorema, do magistral romance Os Detectives Selvagens (1998), de Roberto Bolaño, outro tijolo que ultrapassa as 500 páginas (mesmo em versão compactada) e que chega — do mal o menos — apenas com uma década de atraso. À semelhança de Rayuela, que teve o efeito de uma bomba incendiária na década de 60, esta ficção desmesurada também abanou os alicerces da literatura made in América Latina, mostrando que há vida para além do realismo mágico e seus epígonos (ou filhos bastardos).
Como sempre em Bolaño, é justamente a literatura que está no centro de tudo. E não apenas porque quase todas as personagens se assumem como escritores, ora unidos ora desunidos por filiações estéticas, mas porque a própria aproximação à realidade é feita através de mecanismos ostensivamente literários (fragmentação narrativa, elipses, apoteoses líricas, etc.). A escrita do autor chileno engole o mundo real, devora-o, sobrepõe o seu tempo e a sua geografia àquilo a que chamamos Tempo, àquilo a que chamamos Geografia. Escusado será dizer que a beleza deste processo de assimilação está na consciência do seu inevitável fracasso.
As duas figuras centrais do romance, Arturo Belano e Ulisses Lima, são seres mais leves do que o ar, condenados à deriva e ao desaparecimento. Poetas fundadores do “realismo visceral”, circulam pela Cidade do México exibindo mais pose do que substância. Além de sabotarem os seminários de poesia nas universidades, tanto eles como os seus seguidores baldam-se às aulas, passam os dias em espeluncas a beber café com leite e a dizer mal de Octavio Paz, roubam livros, traficam e fumam marijuana, lêem compulsivamente (até no duche), falam muito, bebem muito mescal (entre outros álcoois) e fazem muito sexo. Arturo e Ulisses, “duas sombras cheias de energia e velocidade”, são muito diferentes, mas agem no mesmo comprimento de onda: “Um deles podia começar a falar e deter-se a meio da fala, e o outro podia prosseguir a frase ou a ideia como se a tivesse iniciado ele próprio.” Um dia, no final de 1975, decidem procurar o rasto de uma poeta esquecida: Cesárea Tinajero, “estridentista” nos anos 20, perdida algures no deserto de Sonora. É o resultado trágico e melancólico dessa busca que os conduzirá, depois, a uma fuga errática que dura pelo menos duas décadas.
Ao leitor, felizmente, a história não lhe surge assim tão linear. A primeira e terceira partes correspondem a um diário que Juan García Madero, real visceralista de 17 anos, órfão, redige imediatamente antes e depois da sua rocambolesca partida para o deserto de Sonora, a bordo de um Ford Impala branco, com Arturo, Ulisses e uma prostituta acossada, mais o chulo dela no encalço. O essencial do romance, porém, está na segunda parte, composta pelos depoimentos sobre Belano e Lima dados por 52 personagens que com eles se cruzaram entre 1976 e 1996, durante a tal fuga desesperada para lugares tão longínquos como Telavive, Manágua, Viena, San Diego, Paris ou Monróvia. Mais do que virtuosismo, este complexo novelo de histórias (que tanto se complementam como se contradizem) revela a mestria narrativa de um escritor excepcional, no momento em que atingia o ápice das suas capacidades expressivas.

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]



Comentários

8 Responses to “A viagem diagonal”

  1. freitas horto on Agosto 5th, 2008 14:06

    pontuaçao altissima… e 9.5 é um numero que me deixa a pensar…

    fico curioso em saber o que faltou para o 10:)

  2. José Mário Silva on Agosto 5th, 2008 15:08

    A bem dizer, não lhe falta nada para o 10/10, mas acho que o próprio Bolaño faria questão de ficar, nem que fosse por uma unha negra, abaixo de ‘Rayuela’.

  3. Maria on Agosto 5th, 2008 16:39

    por mim o que faltou mesmo para o 10/10 foi a paginação… muito má, mas assim como assim sempre deu para poupar umas quantas páginas ao livro. mas não é por aí… é um livro maravilhoso, assim como todos os que li do autor, a vantagem deste acabou por ser também a dimensão da obra, ler Bolaño é não querer que o livro chegue ao fim, neste chegamos mais tarde ao fim… agora é esperar o 2666, o melhor mesmo era esperar toda a obra, até lá recomendo “estrela distante” teorema

    abraço

    m.

  4. José Mário Silva on Agosto 5th, 2008 20:53

    Cara Maria,
    Refiro justamente o problema da paginação no post seguinte.

  5. António on Agosto 7th, 2008 14:38

    A New Yorker tem em linha «Clara», um conto de Roberto Bolaño. Podem lê-lo aqui:

    http://www.newyorker.com/fiction/features/2008/08/04/080804fi_fiction_bolano?printable=true

  6. Bibliotecário de Babel – Listas on Janeiro 5th, 2009 1:47

    […] Os Detectives Selvagens, de Roberto Bolaño, Teorema […]

  7. João Tordo na Almedina | Bibliotecário de Babel on Junho 30th, 2009 15:12

    […] do Atrium Saldanha). Como leitura paralela, está prevista uma obra magnífica de Roberto Bolaño: Os Detectives Selvagens […]

  8. Francisco José Viegas sobre ‘2666′ | Bibliotecário de Babel on Agosto 13th, 2009 15:06

    […] parecer exagero, mas quem tenha lido Os Detectives Selvagens sabe que provavelmente não é. Viegas revela ainda que a Quetzal vai continuar a publicar Bolaño. […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges